01/04/2007

O desafio de unir espaços. E pessoas

Fonte: O Globo

Estudiosos procuram saídas para integrar os ambientes, tão divididos de 97 para cá

Simone MarinhoZap o especialista em imóveisFragmentando e integrando ao mesmo tempo:a parede móvel, escondida num painel de madeira, une o home theater ao escritório. Antes, tudo era em um ambiente só, que foi dividido. O projeto é do arquiteto Ricardo Melo

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Compartilhar versus isolar-se. Esses dois verbos representam a transformação por que passou o desenho da moradia da classe média brasileira urbana de 1997 para cá. Enquanto há dez anos, os cômodos das casas costumavam ser usados por todos os membros das famílias, o mais comum agora é que as pessoas ocupem os espaços de forma individualizada. E pensar em soluções para integrar esses ambientes, hoje tão compartimentados, é o desafio dos profissionais de arquitetura daqui para frente.

Simone MarinhoZap o especialista em imóveis

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Essa é a síntese do estudo “97-07/Dez anos de morar urbano no Brasil”, feito para o “Morar Bem” pelo Núcleo de Pesquisa Sobre Habitação e Modos de Vida (Nomads), da Universidade de São Paulo.

Suítes em apartamentos para todas as faixas de renda

Para os estudiosos do Nomads, um caminho a seguir é substituir as paredes fixas por paredes móveis, permitindo a reorganização do apartamento segundo a atividade que esteja sendo desenvolvida. O arquiteto Marcelo Tramontano, coordenador do Nomads, diz que essa seria uma forma de aumentar os cômodos, tão apertados. Afinal, como mostra a pesquisa, as moradias não perderam metragem nos últimos dez anos porque já tinham sido reduzidas o suficiente em décadas anteriores:

— Como aumentar a área dos imóveis é uma opção inviável para o mercado, o morador poderia aumentar a dimensão de um cômodo ou de outro conforme o uso.

Ainda segundo o estudo do Nomads, algumas novidades dos últimos dez anos devem se tornar mais presentes daqui em diante. Como a proliferação das suítes em empreendimentos para todas as faixas de renda e o aumento de lançamentos de apartamentos do tipo loft e duplex para a classe média alta.

— A tendência de uma maior oferta de suítes é conseqüência da individualização. Atualmente, o desejo das pessoas não é mais somente ter o próprio quarto, mas ter seu próprio banheiro também — ressalta o arquiteto e pesquisador do Nomads, Fábio Abreu de Queiroz, um dos responsáveis pelo estudo.

A disparada no número de usuários de internet no Brasil — de um milhão para 30 milhões desde 1997 — e o aumento dos aparelhos de televisão nos domicílios parecem reforçar o caráter da individualização do quarto de dormir. É o que destaca o antropólogo Gilberto Velho:

— Antes, havia uma TV na sala que congregava a família. Hoje, nos lares de classe média, há em cada quarto uma TV e tudo que vem junto, como o DVD. Além de outro fenômeno tecnológico, o computador. É uma maior fragmentação que vai se refletir na moradia.

‘A estrutura tradicional se mantém mesmo nos lofts’

Para o psicólogo Adauto Henriques, esse isolamento, além de empobrecer o indivíduo emocionalmente, acaba ferindo a proposta familiar:

— Afinal, mesmo quando a família está sob o mesmo teto, não se fala. É como se o lar fosse um albergue, onde as pessoas apenas dormem debaixo do mesmo teto. Eu acredito que a saída, no que diz respeito à concepção do espaço residencial, seria procurar atender às duas demandas, criando espaços de convivência dentro da própria casa.

Os lofts são também uma conseqüência de mudanças na família brasileira: o aumento do número de divórcios, o retardamento da idade do primeiro casamento, a emancipação da mulher, entre outros fatores, causaram o aumento crescente do número de pessoas vivendo sós. Também cresce significativamente o número de casais sem filhos.

Mas, ainda segundo o estudo do Nomads, a repartição da habitação em áreas social, íntima e de serviços continua a dominar os projetos arquitetônicos — mesmo nos lofts. Para Queiroz, ainda que esses espaços não sejam compartimentados, a estrutura espacial sempre será a mesma:

— O próprio layout de mobiliário que as construtoras oferecem, mesmo para lançamentos residenciais que são do tipo loft, segue a estrutura dos imóveis tradicionais. Esse tipo de arquitetura permite a integração visual dos cômodos, mas o uso deles continua sendo feito de forma independente.

Nas áreas comuns dos condomínios, aumentam os equipamentos e serviços de lazer e o número de vagas de garagem. De maneira geral, frisa Marcelo Tramontano, os novos conjuntos de prédios continuam a oferecer equipamentos de uso coletivo comuns em 1997, como salões de festas, de jogos, piscinas, saunas, quadras esportivas e salas de musculação. Mas essa lista ficou praticamente interminável.

— Muitos desses edifícios, que têm ares de clube, agora incluem pistas de caminhada, lan houses, espaços-gourmet, quiosques e garage-bands (para bandas de música). Ao oferecerem tais equipamentos na esfera coletiva dos edifícios, as empresas tentam compensar a falta de espaço nas unidades — diz Tramontano, lembrando que boa parte desses atributos, tradicionalmente relacionados a empreendimentos mais caros, tem se estendido às populações de menor renda.

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