27/04/2007

“O funcionário fiel é um patrimônio de segurança”

Fonte: O Estado de S. Paulo

“Toda pessoa quer morar numa casa, onde domine a situação. Isso não é mais possível. Procuro dar a maior liberdade possível”

Vivi Zanatta/AEZap o especialista em imóveisGadadler – “Segurança é como felicidade. É um estado mental, não um estado físico. O brasileiro tem cabeça boa, nesse sentido”

Gad Adler: Diretor da Techsys Logística e Administração

Formado em Filosofia e Teoria das Religiões e História, na Universidade de Tel Aviv, o israelense Gad Adler, 40 anos, está no Brasil desde 1997. Com sua Techsys Logística e Administração, administra condomínios e dá soluções prediais de maneira geral, inclusive de segurança. “Procuro me atualizar, estou sempre estudando tanto em sistemas como em métodos de defesa”, afirma ele. Uma de suas conclusões principais: “Em segurança, não existe uma novidade absoluta, total. Tudo o que existe em matéria de segurança gira em torno de câmeras, sensores e iluminação.”

Embora a Techsys dê assistência completa aos condomínios, Adler tem consciência de que a segurança é hoje o ponto principal: “Muito do que se faz em outras áreas tem a ver com segurança. A tendência dos condomínios clube se consolidou por que as pessoas preferem não sair, querem ter tudo em casa, dentro dos muros do condomínio”.

Como compatibilizar a demanda por segurança com a demanda por morar bem?

A segurança sempre tem implicação na vida do cidadão, em qualquer lugar, em qualquer situação. A esse respeito, tenho a idéia básica de que segurança é um estado mental, não um estado físico. Temos uma regra, neste setor, que diz assim: qualquer ponto é penetrável, desde que haja elemento surpresa, criatividade, tempo, planejamento e dinheiro.

Um exemplo é o Banco Central, em Fortaleza, onde os assaltantes entraram por um túnel cavado nas imediações…

Sim, sem dúvida. Israel conseguiu ir a uma distância de 2 mil quilômetros, numa operação aérea super complicada, e bombardeou a usina nuclear de Sadam Hussein. Ou seja, com planejamento, tempo, mão-de-obra, capacidade, todo ponto é vulnerável. Não acredito somente em segurança defensiva. Há que buscar uma compatibilidade entre o que o assaltante pode fazer e o que você pode fazer. Temos também que separar dois tipos de assaltantes, o profissional e o esporádico, o que é chamado de pé-de-chinelo.

Entre policiais, existe a convicção de que o ladrão é preguiçoso. Se fosse trabalhador, ele não iria roubar. O ladrão prefere assaltar onde é mais fácil.

Concordo que o ladrão prefira sempre o mais fácil, o que dê menos trabalho. Mas não acho que ele seja preguiçoso. Minha visão de todos os criminosos, especialmente em países do terceiro mundo, é que são pessoas que se destacam na sociedade. Em que termos? Vamos analisar a partir do fato de que cada pessoa nasce com certa inteligência e, quando chega aos 15 anos, 16 anos, vai decidir o que pretende ser na vida. Ele vai analisar as opções que tem. Por exemplo, veja o chefão dessa organização criminosa, o PCC, é uma pessoa competente em termos de administração, controle. Se ele subisse normalmente, dentro da sociedade, ele teria chance de ser o diretor de uma grande empresa, de uma multinacional? Chance mínima, uma entre milhões. Qual o cálculo que ele faz: posso ser garçom num restaurante, onde qualquer madame vai dar bronca em mim, ou posso ser o chefe.

Isso se aplica também ao pé-de-chinelo?

Quanto a esse, concordo plenamente que seja preguiçoso. Mas os profissionais do crime têm que ser trabalhadores e competentes quanto os de qualquer outra profissão. Eles planejam, usam equipamentos de última geração, sabem como trabalhar em grupo. Veja só que alguns dos prédios com os melhores sistemas de segurança estão entre os mais assaltados em São Paulo. Dá para entender isso. Para o ladrão, os primeiros fatores são o elemento surpresa e o controle da situação. Como ele consegue isso? Depois da surpresa do assalto, ele consegue o controle da situação controlando o sistema de segurança eletrônica do prédio. No pensamento do criminoso, é evidente que quem mora num apartamento de 60 metros quadrados tem menos valores que aquele que mora num apartamento de mais de 300 metros quadrados. Os profissionais do crime prestam atenção a todos os detalhes e agem segundo um plano.

Como fazer para neutralizá-los?

Não acredito que exista uma forma infalível de neutralizar os profissionais. Se uma quadrilha de 15 pessoas quiser, conseguirá entrar em qualquer prédio de São Paulo, ou de qualquer outra cidade. A polícia normalmente rastreia os profissionais, valendo-se de informações, do estudo de padrões de assalto e tudo mais. Nesse sentido, os esporádicos são mais difíceis para a polícia, porque não têm um padrão de ação, não têm quadrilha formada, eles agem por impulso, sem controle.

Os moradores podem criar algum tipo de defesa preventiva?

Até hoje, em todos os casos de assalto a condomínios, nunca houve situação de risco à vida. Há muitos casos em que alguém vê que determinado prédio está sendo assaltado, liga para a polícia e a polícia prefere não vir na hora. Por quê? Porque a polícia não deseja transformar um assalto em situação de seqüestro, com risco à vida. Agora, respondendo à pergunta, no sistema que desenvolvemos, há botões de alarme, fixos e móveis. Pode ficar com o porteiro, com o vigia que faz a ronda, pode estar na mão do síndico. Por esse sistema, controlamos os pontos principais, os que pode oferecer mais risco.

Esse controle interfere na vida do morador? Significa invasão de privacidade?

Sou liberal, por formação. Portanto, sou contra câmera dentro do elevador, porque restringe a liberdade do morador, inibe as pessoas. Sou contra a idéia de colocar os moradores como que dentro de uma prisão, até mesmo porque acredito que isso não resolve. Nós, quando trabalhamos num prédio, pensamos no conjunto, pensamos em toda a comunidade do prédio. Aí vem a discussão: até onde é possível restringir os direitos dos moradores em nome da segurança, da disciplina? Minha filosofia pessoal, que aplicamos com bastante sucesso, parte do princípio de que qualquer um quer morar numa casa, onde seja o dono de toda a situação. Infelizmente, isso não é mais possível. Então, dou à pessoa a maior liberdade possível e restrinjo no mínimo necessário. É preciso, no condomínio, encontrar o consenso a respeito do que pode e do que não pode. Há casos em que os moradores preferem sofrer restrições em sua liberdade, para se garantirem mais segurança.

Sua empresa já trabalhou em prédios ou condomínios em que os moradores pensam assim?

Sim, em alguns prédios colocamos câmeras no elevador com consentimento dos moradores. Neste prédio, onde está instalada a minha empresa, a maioria é contra. Não temos câmeras nos elevadores e até hoje não sentimos necessidade. Isso varia de prédio para prédio.

A iluminação é apontada como fator de segurança. Você concorda?

Concordo. Os dispositivos básicos de segurança são as câmeras, os sensores e as lâmpadas. Em frente ao prédio da nossa empresa, freqüentemente se viam pessoas pela rua fumando maconha. Iluminamos, colocamos câmeras, e o problema acabou. Inibidas, as pessoas pararam com a maconha por aqui. É preciso tomar esses cuidados, para o assaltante não se aproximar. Por exemplo, se num carro está um sujeito grandalhão, fortão, com vidros escuros, jeito de blindado, e noutro carro está uma mulher franzina, desprotegida, o assaltante vai escolher como vítima a mulher. Não que ele tenha medo do grandalhão, apenas ele segue a lei do menor esforço, do menor perigo de uma reação. Não penso que seja esse um raciocínio preguiçoso do ladrão. É cálculo que qualquer um faz, em qualquer situação. O normal é que as pessoas escolham o mais seguro.

Você vem de Israel. Que comparação é possível entre a segurança de Tel Aviv e São Paulo?

A diferença é total, afinal lá se vive num clima de guerra latente, muitas vezes guerra declarada. Se alguém vê uma situação suspeita, saca a arma na hora. Mas algumas experiências de lá podem ser úteis aqui. Na verdade, tem havido muita transferência de experiências para o Brasil, para São Paulo, quase sempre em ações de maior porte. As ações preventivas em casos de seqüestro, por exemplo, podem ser muito úteis aqui. Em termos de segurança pessoal também. Em Israel, mais de 20% da população, talvez 30%, trabalha em segurança. Todo shopping center é extremamente vigiado. Para entrar, todo mundo passa por revista.

Esses cuidados poderiam chegar aos nossos condomínios?

A esse ponto, não. Mas nos condomínios maiores já surgem sistemas para controlar os controladores. O condomínio contrata dez seguranças, vamos dizer. Mas como ter a certeza de que não dormem à noite? É preciso, então, que cada um ande com GPS, para ser detectado seu paradeiro a qualquer momento. Ele não pode pegar o carro e sair par tomar uma cerveja no bar da esquina, em vez de cuidar da segurança do condomínio. Existem pontos onde deve ficar marcada a passagem dele. Hoje já se usam câmeras até dentro do carro.

A propósito de segurança pública, o que você achou do esquema empregado na recente visita do presidente americano George W. Bush ao Brasil. Foi um exagero?

Em segurança, nada é exagerado. Depende de dinheiro, de quanto a pessoa se dispõe a gastar. No caso do presidente Bush, acho que ele nem dormiu naquele hotel onde foi dito que ele estava hospedado. Acho que ele dormiu no consulado americano, que é bem mais seguro. Muitas vezes eles fazem isso. Às vezes até trabalham com clones, sósias. Naqueles dias, nenhum meio de comunicação sabia com antecedência sobre os deslocamentos dele. Diziam que ele estava desembarcando, no aeroporto, quando na verdade ele já viajava pela rodovia. Mas não acho que houve exagero. Se conseguem atingir o presidente dos Estados Unidos com uma ação terrorista, o efeito é mais forte do que derrubar as torres gêmeas de Nova York. Como símbolo do país, é mais forte.

Voltando à cidade de São Paulo, quando as pessoas aqui vão se sentir inteiramente seguras?

O brasileiro tem uma cabeça boa, nesse sentido. Segurança é como felicidade. É um estado mental, como eu já disse, não um estado físico. O sujeito acha que se tiver mais um carro vai se sentir um pouquinho mais feliz. Todo mundo fala que não pensa assim, mas age dessa maneira. Compra mais uma roupa e se sente mais feliz. Felicidade é um estado mental. Ninguém pode dizer que há mais gente feliz no Jardim América que na favela. É uma questão de atitude. Em termos de segurança, também. Já passei por lugares perigosos e não senti medo. Quando cheguei ao Brasil, sentia menos segurança que em Israel, porque lá eu conhecia toda a situação. É tudo uma questão de como você encara a vida. Nesse sentido, o brasileiro é bem tranqüilo.

Seu modo de encarar a vida, hoje, é mais brasileiro que israelense?

Acho que sim. Bem mais brasileiro. O grande paradoxo da vida, como já diziam os samurais, é que quem tem medo de morrer, não vive. Todos nós vamos morrer um dia. Ninguém sabe quando, nem como, mas todos vamos morrer. Não se pode portanto entrar numa piração. Não se pode estar o tempo todo pensando no que vai acontecer quando abrir a porta da rua para ir trabalhar. Claro que ninguém deve ser incauto. Em segurança não existe certeza, mas existe probabilidade. Eu, pessoalmente, tomo cuidados que considero mínimos e outros podem considerar máximos. Só ando de carro com os vidros fechados, não paro nos faróis de trânsito depois ds dez da noite, tomo naturalmente todo cuidado para evitar acidente, mas não paro. Evito estacionar o carro na rua, só em estacionamento. Quando vou chegar ou sair de casa, estou sempre atento, para não ser pego de surpresa. Isso para mim é fácil, porque fui acostumado a agir assim desde criança. Em Israel, houve época em que uma pessoa puxava a faca na rua e começava a esfaquear todo mundo em volta. Toda semana acontecia um caso assim, às vezes mais de um. Fomos então treinados a agir com cautela, a tomar cuidado para não sermos pegos de surpresa.

Você não recomenda, portanto, o jeito brasileiro de lidar com segurança pessoal?

Para mim, esses cuidados viraram uma segunda natureza. Mas o jeito brasileiro de lidar com segurança é positivo, é bom. As pessoas vivem, aqui. Não há dúvida de que é preciso fazer algum trabalho mais amplo de natureza social e de cumprimento da legislação. É preciso ter punição mais rigorosa e efetiva. Sobretudo, é preciso ter bastante obra social. Nos países de primeiro mundo, fala-se em 10% de potencial de criminalidade na sociedade. Aqui o potencial chega a 50%. Volto a dizer que quem vai para o crime são jovens inteligentes. Eles entendem que se não forem no caminho do crime, a perspectiva deles é de ter um emprego de mil reais por mês pelo resto da vida, se tiver muita sorte. Perto, um chefão de crime oferece para ele cinco mil, dez mil.

Haveria alguma maneira de controlar esse processo?

Minha especialidade, em filosofia, são as religiões. Como mecanismo de organização social, a religião leva a vida para um nível ideológico, de maneira que a pessoa pensa assim: não tenho bens materiais, mas meu espírito está bem. Mas a cultura americana do consumismo, que reina aqui, é o oposto. Um jovem de 16 anos que não consegue o tênis da moda, por isso perde a namorada para o outro que tem o tênis da moda. Ele começa a sentir que o mundo conspira contra ele. O que é verdadeiro, na prática. Nesses caso, um ou outro até consegue resistir, vai tentar uma carreira profissional legal. Mas muitos acabam seguindo o caminho do crime.

Guimarães Rosa, no Grande Sertão: Veredas, diz que o pobre precisa ter amor à honestidade.

Os ricos também deviam ter amor à honestidade. Que nome dar, por exemplo, a uma lei que os bancos façam passar no Congresso, permitindo que abusem da população? Não é honesto, mas é legal, está na lei. A legalidade não implica honestidade.

Você disse que segurança se baseia no tripé câmera, sensor e iluminação. E o pessoal?

Em termos de equipamento, o básico são esses três pontos. Outro ponto, ao qual damos ênfase especial, é o treinamento do pessoal. O treinamento e a fidelização de quem trabalha num condomínio. Um encanador de inteira confiança, por exemplo, terá a preferência, ainda que cobre mais caro. Nós pagamos pela confiança que ele inspira, em vez de nos expormos a lidar com vinte encanadores, alguns deles não merecedores de confiança. Vemos também se o funcionário do prédio passa por um problema na família. Nesses casos, procurarmos ajudar a resolver o problema. Cerca de 80% dos assaltos se devem a informação de dentro do condomínio, do prédio. O funcionário fiel é o maior patrimônio de segurança que um prédio tem.

Frases

“Em segurança, nada é exagerado.”

“O grande paradoxo da vida, como já diziam os samurais,
é que quem tem medo de morrer, não vive.”

“Sou contra câmera dentro do elevador. Restringe a liberdade do morador, inibe as pessoas.”

“Os profissionais do crime têm que ser tão competentes quanto os de qualquer outra profissão. Planejam, usam equipamentos modernos, trabalham em grupo.”

“Se uma ação terrorista atingisse o presidente Bush em São Paulo, o impacto seria maior que a derrubada das torres gêmeas de Nova York. Como símbolo do país, é mais forte.”

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