30/10/2006

O maior movimento do ano

Fonte: O Estado de S. Paulo

No dia do GP Brasil, muda tudo na vizinhança do autódromo; estrangeiros alugam janelas do Cingapura e não tem missa na igreja

Sebastiana recebe estrangeiros na lavanderia do seu apartamento, Nazaré fica sem a sala de estar da casa por causa dos hóspedes, irmã Agostina não consegue ver televisão e a comunidade da Igreja de Nossa Senhora Aparecida não pode sequer rezar.

Ser vizinho do Autódromo de Interlagos não é exatamente viver no paraíso. É ter de conviver com muita festa e também com muitos transtornos. Mas todo mundo tem um jeitinho para se adaptar à chegada do Grande Prêmio do Brasil – e, se possível, lucrar com isso.

Sebastiana Vieira Costa mora vive no 5º andar do bloco 2 do Cingapura que faz divisa com o circuito. Seu prédio é o que tem melhor visão para a pista. Da lavanderia e dos dois quartos de seu apartamento, é possível ver a Curva da Junção e um pedaço da Descida do Lago, ao fundo. Desde 2003, aluga suas janelas para quem estiver disposto a pagar R$ 15,00 por dia. “Mas esse ano vou dobrar o preço. Estou sentindo que tem alguma coisa diferente. Vou cobrar R$ 30,00.”

Sebastiana não sabe quem é Fernando Alonso, mas seu neto, Paulinho, sabe. E é ele quem encaminha os turistas para o apartamento da avó e sugeriu o aumento dos preços. “E quan
Assistir à corrida das janelas dos prédios vizinhos ao autódromo custa R$ 30 tas pessoas você vai trazer”, perguntou insistentemente à repórter do Estado. Um grupo de alemães já ficou hospedado na casa. “No outro ano, veio gente de um lugar muito longe. Chegaram aqui de avião. Já pensou, que loucura?”, lembrou a dona da casa.

Já os hóspedes de Maria Nazaré Soares da Silva não têm uma visão tão privilegiada. Ela mora em um sobrado do lado oposto da Avenida Interlagos, que não é tão perto do Autódromo. Mas ela arranjou seu jeito de lucrar. “Alugo a minha sala para vendedores de boné e camiseta de Goiânia. Cobro R$ 30 por dia e R$ 5 por banho”.

Para Nazaré, o que vale é a diversão. “A gente faz churrasco e se fica dançando na avenida interditada, tomando cerveja. São três dias sem dormir.”Moradora da região há 35 anos, ela vê o GP Brasil como mina de ouro. “Eu deixo minha sala vazia, os vizinhos alugam as garagens. Isso aqui é uma festa.” E para não perdê-la, deixou de ir no casamento de uma sobrinha, ontem. “Meu irmão ficou uma arara, mas ela entendeu que todo ano é assim.” Quem tem um pé atrás com a corrida brasileira é a irmã Agostina del Balzo, freira italiana que lidera a comunidade do Jardim Autódromo há 27 anos. “Parece que só viramos gente com a Fórmula 1”. Ainda assim, ela não fica longe da euforia causada pela prova.

Um anexo inacabado do centro comunitário também tem uma boa visão para a pista. E dá-lhe gente pedindo para ver a corrida de lá. “Quando me pedem para acompanhar, eu vou”. O grande problema é a interferência que os carros provocam na televisão da sua casa. “Quando os carros passam, a TV apaga.” Mas nada mexe mais com a vida dos moradores do que o barulho insurdecedor dos motores dos F1. Por causa dele, os fiéis da Igreja de Nossa Senhora Aparecida ficam sem as missas de domingo.”

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