03/12/2008

O mel do melhor

Fonte: O Estado de S. Paulo

Num exercício de resgatar o passado, William Maluf reúne ícones do design brasileiro do século 20 e obras de artistas plásticos nacionais

Zeca Wittner/AE Zap o especialista em imóveisO living tem tapete de seagrass da L””Oeil e, em primeiro plano, poltrona criada por John Graz, à venda no Estúdio Jacarandá

SÃO PAULO – É o apreço às coisas do Brasil que norteia o trabalho do arquiteto William Maluf. “Quando a gente sai da faculdade, tem muitas informações na cabeça. O tempo vai fazendo descobrir um caminho particular”, diz ele, que completa 30 anos de carreira. Em vez de se ater apenas ao que vem de fora, como lá no início, já faz anos que William se volta para manifestações brasileiras. Quem quiser conferir que visite o Estúdio Jacarandá, sua loja-escritório, onde se vê o esmero de um garimpo feito com peças arrematadas em viagens ou leilões.

Depois de bater perna em diferentes endereços – coisa que adora -, Maluf criou, com exclusividade para o Casa&, o living exibido aqui. Ícones do móvel brasileiro misturaram-se a obras de artistas também nacionais. “Ficou com caráter masculino”, opina ele, que trabalhou o lugar em preto-e-branco com o “mel do melhor” – expressão emprestada de um livro do poeta Waly Salomão. “Procurei mostrar como é possível um ambiente ser brasileiro e, ao mesmo tempo, internacional.”

O arquiteto, de vocação originalmente mais clássica, soube se atualizar ao dizer não para acabamentos rebuscados e valorizar peças vintage nacionais. Teve a sorte, diga-se, de esse conceito entrar de vez no circuito do décor. “Aqui pincei assentos de autores de diferentes épocas do Brasil do século 20”, explica. São eles John Graz, Jorge Zalszupin, Lina Bo Bardi, Sergio Rodrigues e José Zanine Caldas, cujos mó- veis de madeira ou revestimentos escuros distribuem-se em torno das mesas de centro de Joaquim Tenreiro. De couro branco, o sofá de linhas retas tem desenho do próprio arquiteto e é ladeado por aparadores com belas peças – caso dos abajures com base feita pelo ceramista Guido Totoli, que reproduziu o encontro de Adão e Eva. Não é só.

Estantes e um móvel-bar produzidos nos anos 50 pelo Liceu de Artes e Ofícios mostram como o trabalho dessa organização foi importante na busca de uma identidade do móvel brasileiro. E dá-lhe mais Brasil nas paredes brancas, com desenhos dos anos 70 de Guilherme de Faria e antigas obras de Darel Valença Lins e Emanoel Araújo. “Gosto de resgatar o passado”, diz o arquiteto. De fato, um saudosismo saudável permeia o espaço, com tapete de fibra a criar o arremate.

Colecionador inveterado de móveis, obras e objetos, William também compila informações ao longo de seus 55 anos. Constam do repertório dele influências do que se poderia chamar de decoradores com “d” maiúsculo – “aqueles que tingiam o cordão do sofá para se ajustar melhor com o tom da parede”. Da aproximação com Germano Mariutti, conta, veio a experiência de mexer com as cores. De José Eduardo Aguiar, um certo glamour contido. O uso que faz da laca parece citar Terry Della Stufa. Já a predileção por peças de palhinha pintadas de branco ou em forma de abacaxi evoca o carioca Julio Senna. “Sempre curti esses elementos, mas me surpreendi ao conhecer melhor o trabalho de Senna e ver a coincidência”, diz ele, para quem falta aos jovens pesquisa e coragem de estabelecer, sem preconceito, um estilo próprio. “Está tudo muito igual.”

Engana-se quem pensa que apenas o sofisticado interessa a William Maluf. “O que importa é que as coisas sejam sinceras”, costuma dizer. Isso inclui o simples. Um exemplo: três chopes depois no Bar Brahma, no cruzamento das Avenidas Ipiranga e São João, cantado por Caetano Veloso, ele vira e fala: “Que restaurante estrelado que nada, o verdadeiro Brasil está aqui!”. O motivo? Tinha se emocionado com a flor presa ao cabelo da cantora Carolina Soares, dona da voz que entoava, na noite de sexta-feira, ritmados sambas de raiz.

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