24/03/2011

O privilégio de morar ao lado de parques

Residir em um apartamento ao lado de um parque da cidade pode ser considerado um privilégio

São Paulo – Quando perguntado sobre seu endereço em São Paulo, o economista carioca Alexandre Guedes respondeu de pronto. “Moro na Vieira Souto, a uma quadra da Avenida República do Líbano.”

Mas não há nenhuma Vieira Souto nas imediações de seu condomínio, em Moema, zonal sul de São Paulo. Alexandre apenas cometeu um ato falho justificável: seu apartamento fica em frente ao Parque do Ibirapuera, e, assim como na cobiçada avenida que margeia a Praia de Ipanema, no Rio, tem uma das vistas mais privilegiadas da cidade.

“Meu prédio não tem área de lazer: o parque é nossa área de lazer”, esnoba. Para Guedes, de 39 anos, morar perto do Ibirapuera é uma boa maneira de manter o equilíbrio em meio à selva de pedra. “Ele funciona como uma válvula de escape. É o ‘calçadão’ de São Paulo, passa tranquilidade para a gente.”

A tranquilidade tem um preço. Um imóvel com vista para algum dos parques da capital pode doer no bolso de quem quer comprar. É o que afirma o diretor da Imobiliária Coelho da Fonseca, Roberto Coelho da Fonseca. “É quase como estar de frente para o mar”, explica.

De acordo com Fonseca, a valorização de unidades com vista para áreas verdes pode chegar a 30%, dentro de uma mesma região. Em um mesmo prédio, a diferença de preço entre um imóvel voltado para um parque e outro sem a vista pode alcançar os 10%. “Mas é um fator decisivo para a compra, e para muita gente, não importa o valor.” Um dos empreendimentos negociados pela imobiliária fica à beira do Parque Burle Marx, no Panamby, zona sul da capital. Com valor inicial de R$ 2,5 milhões, já teve 80% das unidades vendidas.

Escassez. O diretor afirma, também, que quanto mais verde for o bairro, menor vai ser a valorização de um imóvel com vista para parque. “Quanto mais escasso for o verde, mais caro ele se torna.” Para o conselheiro do Conselho Regional de Corretores de Imóveis (Creci-SP), José Augusto Sasso, a proximidade de um parque é mais determinante para sua venda do que, necessariamente, uma bela vista para o mesmo. “Eu diria que o fato de estar de frente para o verde aumenta entre 3% e 5% do preço. O que faz a diferença mesmo é ter um parque por perto, e, além dele, um bom centro de serviço e compras”, afirma.

Ainda sim, há quem não dispense um visual bem verde em frente à janela. A funcionária pública Christina Zeitunlian mora no sétimo andar de um prédio colado ao Parque Buenos Aires, em Higienópolis, na região central. “Você não imagina essa vista quando o céu está azul”, exclamou diante do dia nublado – que contrastava com o exuberante verde das copas das árvores.

Embora pequeno, o Buenos Aires se estende como um vibrante oásis à beira da sala de Christina. “Os passarinhos acordam a gente de manhã, é uma delícia. Menos para meu filho, que é DJ e chega em casa quando o dia já está claro.” Rafael, o notívago, confirma. “As maritacas são as piores”, diz. “Mas vale a pena.”

Aves e algazarras à parte, a moradora costuma receber ofertas altamente tentadoras pelo apartamento. “Compradores e corretores já me cantaram para arrematar o imóvel. Mas eu não me mudo daqui de jeito nenhum.”

Fazenda. Situação semelhante ocorre com os moradores de um edifício localizado praticamente dentro do Parque da Água Branca, na zona oeste. “Originalmente, o prédio era totalmente integrado ao parque”, conta o morador Salvatore Iungrano.

Ele decidiu morar por ali por ser um frequentador assíduo do Água Branca. “As pessoas passam por aqui e tocam o interfone perguntado se tem apartamento disponível”, diz a psicóloga Cândida Meirelles, vizinha de Iungrano. “E com a maioria dos moradores atuais, foi exatamente assim que eles vieram para cá”, conta. As varandas e janelas dos apartamentos são totalmente voltadas para o parque.

Por ter animais em seu espaço, como cavalos, além de galinhas e pintinhos soltos por suas vielas, o parque tem uma aura de fazenda – inclusive no quesito despertador. “Acordamos com os galos”, conta Iungrano.

Na zona sul de São Paulo, a aposentada Wanda Koumrouyan Vieira desfruta de outra vista. “Moro há quase 40 anos na Aclimação e, há 15, tenho esta vista linda do parque”, conta, referindo-se a um dos mais tradicionais de São Paulo. O prédio de Wanda não fica de frente para a área verde, mas sua janela, sim. “Os sobrados da frente são tombados, ou seja, tenho uma vista eterna do local.” De acordo com ela, há cada vez mais empreendimentos sendo construídos nos arredores do parque.

As possíveis desvantagens de viver em frente a uma “praia” de paulistano, como um maior movimento de pessoas, trânsito e ambulantes, foram consideradas mínimas pelos moradores.

E mesmo com todas as vantagens, Alexandre está vendendo, pela VNC Imóveis, seu apartamento na “Vieira Souto”. “Quero morar com minha namorada, e pretendo encontrar uma casa para gente”, conta. O próximo passo, para ele, é ter seu pequeno parque particular.

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