03/02/2006

Patrimônio é o desafio do grupo

Fonte: O Estado de S. Paulo

Moradores apontam defesa dos bens históricos como prioridade, em seguida vem ambiente

Eles são, muitas vezes, considerados chatos e “donos do pedaço”. Em nenhum mo mento, no entanto, se preocupam com as reações negativas ao seu trabalho. São mooquenses históricos, cujas idades somadas ultrapassam, com folga, os 450 anos que o bairro – somente dois anos mais novo que São Paulo – vai completar em 17 de agosto.

Rafael Cardamone, o Raluca; Crescenza Giannoccaro, a dona Zina; Elizabeth Florido; Ana Pantaleão e Ana Mesquita Meirelles são o que se pode chamar de defensores da Mooca. De patrimônio histórico a meio ambiente, passando por hábitos, costumes e tradições do bairro, os temas pelos quais lutam são os mais variados. O que não muda, porém, é a garra com que defendem os pontos de vista que consideram representar a maioria da população local.

Raluca, uma figura típica de descendente de italianos, poeta, dançarino e juventino roxo, passou praticamente todos os seus 76 anos de vida lutando pelo bairro. Não pode ver um monumento malcuidado que, rapidamente, aciona a Subprefeitura da Mooca ou o Departamento de Patrimônio Histórico (DPH). “O pessoal já se acostumou comigo. Não consigo imaginar quem poderia pichar um monumento histórico e não posso ficar quieto”, diz.
Em 1985, Raluca, a então diretora da biblioteca do bairro e hoje presidente do Conselho Comunitário de Segurança (Conseg), Ana Pantaleão, e o historiador Eugênio Luciano Júnior conseguiram provar que a Mooca – tida como um bairro de 118 anos – tinha, na verdade, 429. Na época, ele integrava a escuderia Pepe Legal, a mais conhecida da Mooca, formada por um grupo de amigos dentro do restaurante de um tio de Raluca para assistir as corridas de carros e fazer atividades beneficentes.

“O Eugênio consultou atas da Câmara e livros do historiador Nuto Sant”ana, um dos maiores especialistas na história da cidade, para comprovar a verdadeira idade do bairro”, conta Ana. Com a mudança, a Mooca passaria a integrar o time seleto de bairros quatrocentões de São Paulo.

A preocupação principal da entidade presidida por Zina, a Amo a Mooca, que reúne líderes comunitários, empresários e moradores, e da qual também participa Elizabeth Florido, são as questão ambiental e do patrimônio histórico.

Graças à luta das líderes comunitárias, o Grupo Pão de Açúcar manteve, com poucas modificações, a estrutura do antigo Cotonifício Crespi, a mais tradicional indústria da região, que poderia virar pó. O lugar hoje abriga um hipermercado da rede. “Esta foi uma grande vitória. Conseguimos, também, criar um espaço cultural, dentro do Extra e recuperar uma antiga capelinha, que era uma marca da fábrica do conde Rodolfo Crespi”, afirma.

No início da construção, Elizabeth chegou a parar a obra, com a ajuda de amigos, porque havia o risco de o prédio terminar descaracterizado. “Houve um estranhamento no início, mas depois o Extra se tornou um aliado nosso”, conta ela.

Agora, a luta é para revitalizar a Avenida Paes de Barros e várias praças. “Também estamos acompanhando uma parceria, já em curso, entre o Extra e o Juventus para revitalizar o estádio do time”, diz Zina.

A preocupação de Ana Maria Mesquita Meireles, por sua vez, sempre foi na área de educação, uma das referências da Mooca. Tanto que muita gente de outras regiões vai estudar lá. Com isso, o bairro tem, hoje, 60 mil estudantes para uma população de 61 mil habitantes.

Nas duas vezes em que presidiu o Fórum de Desenvolvimento da Zona Leste, ela ajudou a fomentar iniciativas para melhorar a oferta de bolsas de estudo na região. Filha do professor Alberto Mesquita Camargo, fundador da Universidade São Judas Tadeu (USJT), ela até hoje não consegue entender como a Mooca, mais antigo que o Tatuapé, não conseguiu criar uma área tão nobre quanto o Jardim Anália Franco. “Tínhamos tudo para que fosse aqui o Anália Franco e um shopping como o que há lá.” O bairro deve receber este ano seu primeiro shopping, feito pela UniCapital.

Mas, será que vale a pena continuar lutando pela Mooca? Nenhum dos defensores pensa duas vezes para responder sim. “É uma grande felicidade viver em um bairro onde tudo é muito bom”, diz Zina, que passou 43 dos seus 62 anos na Mooca.

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