30/10/2006

Patrimônio histórico vira moradia

Fonte: O Estado de S. Paulo

O Casarão do Carmo, no centro de São Paulo, foi construído no século 19 e tombado. Depois de abrigar cortiços por décadas, o imóvel agora passa por reformas e deve, além de ser restaurado, abrigar 25 famílias

Goteiras, incêndios, falta de conforto e espaço. Essas são algumas das dificuldades pelas quais passou Domingos Sena Gonçalves, de 33 anos, um dos mais antigos moradores do cortiço instalado no Casarão do Carmo, centro de São Paulo. Ele, que mora há 15 anos no local, é uma das pessoas que poderá daqui a seis meses habitar apartamentos de 30m² para famílias de até 6 pessoas.

Unir a solução de um problema da habitação e a restauração de um prédio que faz parte da história da capital foi possível já que a recuperação de cortiços faz parte do projeto de revitalização do centro da Prefeitura de São Paulo. A Companhia Metropolitana de Habitação de São Paulo (Cohab) está reformando ou construindo um total de 3,6 mil moradias na região. Por isso, Gonçalves, que tem um filho, está pronto a realizar um sonho antigo: “Sempre houve reuniões na Prefeitura, mas nada acontecia. Agora, terei um teto digno.” Cada imóvel, no caso do Casarão do Carmo, depois de pronto custará R$ 30 mil. As famílias poderão comprometer até 20% da sua renda com as prestações do financiamento. O restante será subsidiado pela Prefeitura. “Nunca queremos nada de graça.

Com a compra do imóvel, ele passa a ser mais valorizado”, diz Luiz Gonzaga da Silva, o Gegê, coordenador do Movimento dos Moradores do Centro. “O projeto é um grande avanço. É um sonho sendo realizado para estas famílias.” Quem assina o projeto das moradias do Casarão do Carmo, o que inclui a restauração do patrimônio histórico, é o arquiteto Héctor Vigliecca. Ele conta que cada unidade também terá móveis como mesas e sofá. “Eles ficarão em lugares pré-fixados, para otimizar o espaço do apartamento.” Vigliecca, que pensou em toda a funcionalidade do imóvel, projetou para cada unidade uma área de serviço ampla e uma cozinha central. Também será aberta uma passagem pública, ajudando na associação da área tombada (de valor histórico) às residências.

O escritório de arquitetura de Vigliecca é voltado para os interesses de habitação social e venceu a licitação do projeto. “Esta é uma grande oportunidade para profissionais se dedicarem a esta área, pois a última grande obra que fizemos foi no começo da década de 90”, conta. Para ele, o interessante é reaproveitar terrenos ociosos e mal conservados dentro de uma área consolidada. “Agora só estamos procurando empresas que queiram investir no centro e recuperá-lo”, diz.

Transformação – O Casarão do Carmo foi construído no final do século 19 para ser sede do bispado da Igreja Católica e residência do bispo. Depois de perder esta função, o local virou um cortiço que, abandonado pelo proprietário, ficou à mercê da degradação e invasões.

Há poucos anos chegaram a viver ali 200 pessoas e, com ligações elétricas mal feitas, o Casarão sofreu alguns incêndios. Nos últimos meses, as 33 famílias que ali viviam continuavam com as moradias em condições precárias, apesar do prédio ser tombado como patrimônio histórico.

Tereza Herling, superintendente de Planejamento e Projetos da Prefeitura, comenta que existe um desconhecimento do setor privado do potencial deste tipo de projeto. “Por isso, esperamos agora que com o Casarão pronto, algumas empresas privadas tenham interesse em restaurar ou dar algum tipo de incentivo”, conta.

A intenção é de que, na parte que é patrimônio histórico seja instalado algo de interesse público, como uma creche municipal. As obras começaram com a demolição do que havia antes e, conforme Tereza, os apartamentos devem ficar prontos em seis meses.

Para Gegê, a Prefeitura está cumprindo sua promessa, pois outros projetos, como o da Rua 25 de Janeiro, já estão quase prontos. “Mesmo assim, são metas que não resolvem o problema, pois a questão da moradia não é algo para uma gestão resolver. Tem que ter governo federal e estadual no meio e a sociedade civil também entrar nesta parceria”, acredita.

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