01/06/2009

Patrulha de vizinhos protege a Vila Romana

Fonte: Jornal da Tarde

Cansados de assaltos frequentes, moradores se reuniram, trocaram telefones para se conhecer melhor e colocaram em suas casas um aviso para os ladrões. Ao menos 80 já aderiram à iniciativa

Valéria Gonçalvez/AEZap o especialista em imóveisMarcelo Caselato, idealizador da vigilância entre vizinhos

Inseguros com os constantes casos de roubo e invasão de casas, os moradores da Vila Romana, na Lapa, zona oeste, decidiram se unir para afastar os bandidos. O muro de cada casa, agora, tem um aviso aos ladrões: “Meu vizinho está de olho!”. Por trás dessas placas existe uma rede de contatos preparada para ser acionada diante de qualquer movimentação estranha nas ruas.

A mobilização começou há dois meses com seis moradores e agora já beira 80 integrantes. A ideia surgiu depois que uma das casas da Rua Manoel Jacinto do Rego foi assaltada em plena luz do dia. Os bandidos estacionaram o carro na calçada e fizeram a limpa: levaram televisões, aparelho de DVD e outros eletrodomésticos. Os vizinhos viram tudo, mas como mal se conheciam, acharam que a família estivesse de mudança.

Foi depois desse assalto que os moradores fizeram a primeira reunião. A partir dela, chegaram à conclusão de que precisavam se conhecer melhor e, de forma premeditada, fazer com que a vizinhança voltasse a ter o clima natural de amizade que havia antigamente. Dos encontros formais para discutir segurança surgiram os bate-papos no portão e a troca de telefones.

Inspirado em experiências semelhantes no Japão e nos EUA, o comerciante Marcelo Caselato, de 43 anos, sugeriu as placas. Ele mora no bairro desde que nasceu e lembra de uma época em que as crianças brincavam nas ruas, não havia muros nem portões e os vizinhos frequentavam as casas uns dos outros. “Pensamos na placa porque ela não agride ninguém, mas indica que essas casas estão unidas”, diz. Moradores de ruas próximas – como a Fábia, Catão, Antônio Calafiori e Coriolano – já aderiram à “campanha”. Hoje, 50 casas exibem as placas nas fachadas e outras 50 já foram encomendadas. Cada uma custa R$ 5.

Caselato já teve uma prova de que a iniciativa está dando certo. Há 15 dias, quatro homens tentaram invadir o sobrado em que ele vive com a mãe e o filho. Eram 14h30. A dona de casa Miriam Camas, de 48 anos, ia ao mercado quando percebeu homens estranhos tentando abrir o portão. ?Pensei: meu Deus, é a casa da dona Ivete e dei um grito?, conta. ?Ainda lembro o jeito que eles me olharam?, diz Miriam. Enquanto ela correu até em casa e telefonou para a vizinha Ivete, os ladrões fugiram. Miriam aprendeu nas reuniões seguintes que deveria simplesmente ter ligado para a polícia, no 190 ou no próprio batalhão da PM local, que apoia a mobilização. Sem gritos.

Embora ainda não tenham estatísticas, os moradores da Vila Romana notaram uma redução de furtos e roubos na região. A presidente do Conselho de Segurança da Lapa, Maria Vargas, estima que havia pelo menos uma ocorrência por dia, mas elas dificilmente eram registradas por medo e falta de informação das vítimas. “Diante dos índices, havia mesmo a necessidade de se fazer um trabalho preventivo”, diz. “E a solução foi ótima: não é porque não acontece comigo que não posso ajudar.”

Mas a patrulha de vizinhos não substitui o trabalho da polícia. Ao contrário: tem feito com que a PM esteja mais presente. “Esse movimento trouxe algo que não tínhamos quando éramos “solitários”. Agora, “”solidários””, conquistamos o respeito das autoridades”, diz o consultor Antônio Gaspar, de 50 anos, morador da vila há dez.

O comandante do 4º Batalhão da Polícia Militar, Marcelo Gonzales, apoia a iniciativa dos moradores e considera essa uma ação exemplar. “Deve ser inclusive copiada em outros bairros”, diz o capitão, que admite não conhecer os vizinhos do prédio onde vive há 28 anos. “O que eles não podem é ter espírito de polícia e tentar resolver sozinhos os problemas”, diz. Os moradores, segundo Gonzales, podem e devem ajudar com informações.

Para o o coronel José Vicente Filho, ex-secretário Nacional de Segurança Pública, essa vigilância comunitária deve ser seguida de uma orientação policial, para que os moradores tenham realmente capacidade de identificar um suspeito. “Isso fará com que a comunidade, de fato, consiga afastar os criminosos.” Na semana passada, a necessidade de treinamento ficou evidente. O boato de que uma quadrilha assaltava casas com uniformes de uma distribuidora de gás fez um morador fotografar um homem uniformizado e denunciá-lo à polícia. “Era uma lenda e o rapaz não passava de um trabalhador”, conta Gonzales.

DICAS PARA QUEM MORA EM CASA – Não deixe que objetos de valor sejam vistos por quem está do lado de fora: aparelhos eletroeletrônicos à mostra podem chamar atenção de bandidos;

Instale esquema de alarme, ainda mais quando for viajar. Em férias, peça para um vizinho pegar as cartas deixadas no imóvel;

Quando chegar em casa, preste atenção em quem está nos arredores. Se tiver dúvida, dê uma volta no quarteirão;

Quando estiver fora, peça para que um vizinho fique atento a movimentações estranhas perto de sua casa;

Mantenha sempre as portas e as janelas da casa fechadas.

2 Comentários

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.