07/07/2008

Paulistanos aderem à troca de casas

Fonte: Estadão

Em busca de férias mais baratas, eles apelam a sites que oferecem residências disponíveis fora do Brasil

O bordão “minha casa, sua casa” nunca pareceu tão apropriado quanto no dia em que o engenheiro paulistano João Afonso Alberdoni desembarcou na simpática cidadezinha de Nantes, no noroeste da França. Ele só queria um quarto-e-sala para passar um mês estudando francês, algo simples, sem frescuras, principalmente barato. Acabou hospedado num château daqueles de filme, com cinco funcionários à disposição, jornal do dia na porta, roupas limpas no armário, televisão a cabo e internet sem limite, comida na geladeira e um carro na garagem para usar quando quisesse. Ah, e só para causar mais inveja, sem pagar um único centavo de euro.

“Eu até falo para os meus amigos que tinha uma carteira com dinheiro na gaveta do criado-mudo”, diz ele, que mora em estúdio na Vila Madalena, zona oeste de São Paulo. “E não é piada, tinha mesmo, juro.” A simpatia do povo de Nantes não explica, sozinha, essa hospedagem de luxo. Alberdoni se cadastrou há sete meses em um site de troca de casas – algo que parece um tanto improvável, até que alguém conte uma história como essa. Um empresário francês de Nantes, que também está cadastrado no mesmo mesmo site, precisava trabalhar em São Paulo por três semanas. E-mail para cá, e-mail para lá, e os dois conseguiram trocar de residência pelo período combinado. “Deixei meu apartamento arrumadinho para ele se sentir bem, mas, quando voltei, fiquei até com vergonha”, diz. “Não tinha nem leite na minha geladeira.”

A chance das férias perfeitas – e baratas – está atraindo cada vez mais brasileiros para os sites de troca de casas, que unem pessoas de todo o mundo atrás de novas experiências e novas residências. Os interessados preenchem um cadastro, pagam uma anuidade ao site (que varia de R$ 100 a R$ 300) e podem combinar a estada nas casas disponíveis no sistema – em contrapartida, também devem ceder as suas casas para receber o turista, com a concordância mútua sobre as datas das viagens. Pelas contas do site americano HomeExchange.com, o mais conhecido da internet, 300 mil pessoas ao redor mundo trocam de casas anualmente para aproveitar as férias.

Só o HomeExchange.com tem 20 mil cadastrados, 208 deles brasileiros. Em outros sites, como o CouchSurfing, o Intervac, o Digsville e o Homelink, há pelos menos outros 150 brasileiros. O sucesso do serviço é tamanho que há sites de troca de casas dedicados exclusivamente para solteiros, outros para casados com filhos, sem filhos, idosos, gays, lésbicas, deficientes físicos, professores universitários… Mas a maior novidade é que cada vez mais paulistanos são seduzidos pelo serviço de intercâmbio residencial, justamente por conta do interesse crescente dos estrangeiros na cidade de São Paulo.

“Coloquei minha casa à disposição no site apenas para ver como funcionava e, em apenas três meses, já tinha e-mail na minha caixa postal de argentino, americano, italiano, inglês, australiano, até turco”, diz o bancário aposentado Francisco Costa, morador da Pompéia, na zona oeste. Em dezembro, ele deve ceder sua casa para um cardiologista inglês que vem para a capital para um congresso médico. “O bom é que os estrangeiros estão loucos para virem para cá”, completa o aposentado Gilson Leão, que também colocou seu apartamento à disposição dos internautas. “Então você tem a chance de se hospedar em lugares maravilhosos.”

Versão Tupiniquim

A premissa da troca de casas é mais conhecida por aqui por culpa da comédia romântica O Amor Não Tira Férias. Cameron Diaz é uma americana com problemas amorosos que conhece, pela internet, uma inglesa vivida por Kate Winslet, outra que sofre com homens cafajestes. Elas decidem então trocar de casa durante o feriado do Natal. Tudo bem que o filme não é lá dos melhores, mas ajudou a popularizar o serviço.

No segundo semestre do ano passado, o ex-gerente de banco Ademar Couto aproveitou o interesse crescente para criar o Trocacasa.com.br (versão tupiniquim do HomeExchange), justamente para ajudar os interessados no processo. “Desde 1999, quando fiz a primeira troca de casas, nunca mais entrei em um hotel”, afirma Couto. “Os brasileiros têm um pouco de receio, medo de deixar as chaves do apartamento com uma pessoa estranha, mas, no final das contas, você também estará com as chaves de outra pessoa, terá de tomar conta da casa do estranho. Isso cria um respeito, uma segurança.”

A gerente de Marketing Georgia Resende, de 33 anos, até pediu para o porteiro do prédio ficar de olho naquele desconhecido de Munique que ficou hospedado em seu apartamento em Pinheiros, depois de uma troca de e-mails pelo Trocacasa.com.br. “Ah, fiquei com o pé atrás. Normal, né?”, conta ela, que fez seu cadastro em fevereiro, depois de a sua irmã falar maravilhas sobre o serviço. “Tirei o passaporte da gaveta, as jóias… Mas, no final das contas, foi super tranqüilo. Até a faxineira continuou indo, lavando a louça e arrumando a cama.”

Georgia agora procura no seu computador apartamentos para ficar na Turquia e na França. “Ver e ficar na casa também é uma forma de conhecer a cultura local”, diz. “O conceito é tão legal, com uma forma diferente de viajar e de conhecer a vida do lugar, que vale a pena experimentar.”

 

 

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.