30/10/2006

Perfil Carlos Carvalho, presidente da Carvalho Hosken

Fonte: O Globo

Construtor crítica o projeto de ocupação da região, que considera elitista

Zap o especialista em imóveis

Aos 81 anos, Carlos Fernando de Carvalho, presidente da Carvalho Hosken Engenharia e Construções, é o último construtor de sua geração que tem as rédeas da empresa seguras em suas mãos. E mais que isso: ainda se mantém na dianteira do mercado imobiliário, indicando tendências e apontando a seta do desenvolvimento, quando o assunto é Barra da Tijuca. Afinal, criada em 1951, há 31 anos sua empresa se dedica exclusivamente ao bairro. Depois de lançar, entre outros, o condomínio Atlântico Sul, uma revolução no setor há 25 anos, e a Península, em 2004, Carvalho agora faz planos para o desenvolvimento do Centro Metropolitano da Barra – a área entre a Vila do Pan-Americano e o Autódromo de Jacarepaguá. Coisa para dez, 15 anos, diz.

– Ele joga a pedra longe o tempo todo. E vai lá buscar – diz Ricardo Corrêa, diretor de marketing da empresa e fiel escudeiro do empresário, revelando, talvez, um dos segredos da vivacidade do octagenário.

Bairro está aquém do que foi projetado

Nascido na Praça Seca, em Jacarepaguá, e formado na Escola Politécnica de Engenharia, em 1949 – na mesma turma do ex-prefeito Marcos Tamoio – Carlos Carvalho dá expediente na empresa de segunda a sexta-feira, das 8h às 20h. No tempo que sobra, faz ginástica para manter em forma os seus 1,78m de altura. E se dedica a colecionar obras de arte clássica, que, aliás, estão por todos os lados na sala de reuniões – onde o computador com tela de plasma, convive com potinhos de bala e biscoito de nata e muitos, muitos, blocos de papel. Já no seu escritório, destacam-se as esculturas de uns dos mestres do art déco, o artista francês René Lalique.

Planos de aposentadoria? Nem pensar. Até porque, o projeto que idealizou, na década de 70, para a Barra do século XXI, ainda não se concretizou:

– Esperava que a ocupação da Barra da Tijuca fosse mais rápida. Na época do milagre brasileiro, nos anos 70, havia uma euforia e, por isso mesmo, minhas projeções eram mais otimistas. Mas, desde a década de 80, o setor imobiliário vem sendo penalizado com juros altos.

Se a instabilidade econômica e os juros pesaram contra os prognósticos do empresário, a legislação também não foi favorável, diz ele. Em sua visão, o bairro se tornou elitista:

– Lúcio Costa foi afastado do plano de ocupação da Baixada de Jacarepaguá antes de concluí-lo. Aí publicaram o projeto como definitivo e criaram uma camisa-de-força para a região. E do jeito que ficou o projeto é elitista sim, há muitas exigências de infra-estrutura e previsões de doações de áreas ao poder público. Com isso, há muitos espaços na Barra da Tijuca que só podem ser ocupados por milionários.

A visão equivocada de desenvolvimento urbano que vem sendo aplicada na região, continua, é um risco:

– A falta de oferta de casas para quem trabalha nos canteiros de obras, por exemplo, e que leva quatro horas por dia até suas casas, incentiva a criação de sub-habitações, como é o caso de Rio das Pedras. Em todo bom planejamento urbano há lugar para variados tipos de moradia.

E é no Centro Metropolitano da Barra que, acredita Carvalho, a classe média terá mais oportunidades para a compra da casa própria no bairro:

– É que nessa região Lúcio Costa previu um maior adensamento, com menos área livre entre os prédios, e isso permitirá empreendimentos mais baratos. A nossa classe média está sem possibilidade de compra. O que ela pode, não quer.

A prova da escassez de imóveis para a classe média, diz ele, foi o sucesso da Vila do Pan-Americano, que recebeu 25 mil inscrições de interessados em adquirir uma unidade no empreendimento.

– A Vila do Pan foi um sucesso de venda porque tinha financiamento de longo prazo e taxas de juros mais convenientes. Os apartamentos de quarto e sala têm 40 metros quadrados e já que as pessoas não podem pagar para morar em um maior, compram e se apertam nos tais 40 metros quadrados mesmo.

Em vez de pesquisa, aposta na experiência

É fato que os tempos mudaram e bastante nos últimos 44 anos, a começar pela forma de construir, que deixou de ser totalmente artesanal para entrar em um ritmo industrial. E nesse novo cenário, em que as empresas investem em pesquisas das mais rebuscadas, Carvalho continua apostando mesmo é no seu velho e bom feeling:

– Durante anos de atividade, sempre investi nas pesquisas pessoais. O importante é conversar com as pessoas, interpretar seus sentimentos. Quando fechei as filiais da minha empresa pelo país e apostei todas as fichas na Barra da Tijuca, há mais de 30 anos, muita gente devia me considerar meio doido. E eu, por outro lado, não entendia porque as pessoas não percebiam o que acontecia por aqui.

Curiosamente, quem, há três décadas, aposta todas as suas fichas na Barra da Tijuca, vive, em família, uma nota destoante. Seus quatro filhos – todos trabalhando com ele na empresa, sediada na Barra, claro – os quatro netos e o único bisneto do empresário moram “do lado de lá”, como Carlos Carvalho se refere à Zona Sul do Rio de Janeiro:

– Mas eu ainda vou trazê-los pra cá!

O que pensa…

“Esperava que a ocupação da Barra fosse mais rápida. Mas, desde a década de 80, o setor imobiliário vem sendo penalizado com juros altos.”

“Há muitos espaços na Barra que só podem ser ocupados por milionários.”

“A falta de oferta de casas para quem trabalha nos canteiros de obras e leva horas até em casa incentiva a criação de sub-habitações, como é o caso de Rio das Pedras.”

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.