01/09/2011

Pesquisa compara substituição de população em Botafogo com o bairro francês d”Aligre

Fonte: O Globo
Rue de Cotte, em Aligre, comércio de bairro se sofistica com chegada de cafés e novas lojas frequentados pelos bo-bôs (Foto: Paulo Thiago de Mello)
Rue de Cotte, em Aligre, comércio de bairro se sofistica com chegada de cafés e novas lojas frequentados pelos bo-bôs (Foto: Paulo Thiago de Mello)

Nem é preciso circular muito por Botafogo para perceber que há tempos o bairro já não é mais aquele. De mera passagem para pontos da Zona Sul considerados mais nobres, Botafogo vem se tornando, nos últimos cinco anos, um lugar de fixação, inclusive para uma nova classe média, com uma renda mais alta. E o tipo de empreendimentos que vêm sendo erguidos na região mostra claramente essa mudança. Esta semana, por exemplo, será lançado ali um prédio com apartamentos tríplex, que vão custar até R$ 2,2 milhões.

Morador do bairro, o antropólogo do Laboratório de Etnografia Metropolitana (LeMetro) da UFRJ e jornalista do Globo Paulo Thiago de Mello percebeu o fenômeno e resolveu estudá-lo. Em seu trabalho de pós-doutorado, ele compara Botafogo – mais especificamente a área próxima às ruas da Passagem, Álvaro Ramos e General Polidoro – a d”Aligre, no 12ème arrondissement de Paris. Duas regiões que, como muitas outras em grandes metrópoles, estão passando por um processo de substituição de população provocado por diferentes fatores.

“Lá, esse processo de aburguesamento começou há 20 anos e se intensificou nos últimos anos, abrangendo toda a cidade. Há apartamentos em Aligre que tiveram valorização de 400% de 2001 para cá. Aqui, ele é impulsionado pelo boom do setor imobiliário, por políticas de valorização da cidade, como as UPPs que criam cinturões de segurança, e pela realização de grandes eventos que atraem investimentos”, analisa Paulo Thiago.

Desing, na Rua Arnaldo Quintela, um dos muitos empreendimentos que vem sendo erguidos em Botafogo. Teve 100% de suas unidades vendidas no lançamento (Foto: Simone Marinho)
Desing, na Rua Arnaldo Quintela, um dos muitos empreendimentos que vem sendo erguidos em Botafogo. Teve 100% de suas unidades vendidas no lançamento (Foto: Simone Marinho)

O resultado se vê nas ruas. No bairro parisiense, o comércio de bairro, que muitas vezes tinha em suas fachadas nomes árabes, já que o local era ocupado por imigrantes, começa a ser substituído por lojas e cafés mais sofisticados e a ser rapidamente ocupado pelos chamados bo-bôs (bourgeois-bohème ou burguês boêmio). Hotéis sociais, subsidiados pelo governo francês para moradores de baixa renda, são transformados em hotéis comerciais. Prédios antigos são reformados, mas se as fachadas são preservadas, no interior as mudanças incluem rede wi-fi e elevadores em edifícios centenários.

“No Rio, além da ocupação de terrenos, o processo de renovação é marcado por demolições, ao passo que em Paris existe uma preservação do tecido urbano. Mas os bairros tinham no passado populações bem semelhantes, tanto pela renda quanto pelo clima de comunidade, com as conversas na calçada”, avalia Paulo Thiago.

Aqui, se alguns botequins e rodas de samba sobrevivem ainda preservando esse clima, eles também passam a conviver com bistrôs e comércios mais sofisticados. Já as casas de vila e pequenos prédios começam a desaparecer e dar lugar a condomínios fechados, com infraestrutura de lazer e segurança que garantem a exclusividade procurada pelos novos moradores.

Não à toa, o bairro é desde 2009, o que tem maior número de lançamentos na Zona Sul, informa a Ademi/RJ. Estudo feito pela Lopes Imobiliária – que inclui 90% dos lançamentos feitos no bairro de 2007 até julho último – mostra que a maior valorização do metro quadrado ocorreu nos apartamentos de três quartos: eles ficaram 94% mais caros. Ainda segundo a pesquisa, num universo que engloba 32 empreendimentos, nenhuma unidade do tipo ficou para estoque. Já dos 179 apartamentos de quatro quartos lançados no mesmo período, restam hoje apenas 2%.

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