23/07/2010

Pesquisa sobre a arquitetura popular brasileira é transformada em livro, com textos e imagens

Fonte: O Globo
Conjunto de casas em estilo colonial, em Nova Viçosa (Foto: Demis Ian Sbroglia)
Conjunto de casas em estilo colonial, em Nova Viçosa (Foto: Demis Ian Sbroglia)

Rio de Janeiro – Casas de taipa, de concreto armado, de garrafas PET ou de latas. São projetos como esses que compõem a multifacetada arquitetura popular brasileira. Em 2008, Demis Ian Sbroglia, na época aluno do curso de graduação de arquitetura da Universidade Federal Fluminense (UFF), percorreu o litoral do Brasil de bicicleta para mapear este tipo de moradia. Ele foi do Oiapoque ao Chuí, literalmente. A pesquisa, parte de seu projeto de graduação, foi transformada no livro “A arquitetura popular brasileira” (Ed.Bomtexto/2010), lançado este mês, e conta com a colaboração de dois pesquisadores, os arquitetos Wherter Holzer, Günter Weimer, e do fotógrafo Humberto Medeiros. Em cada capítulo há um rico material sobre as peculiaridades das habitações de cada região. 

“As questões ecológicas e geográficas interferem na construção das moradias e na escolha dos materiais. No Norte, por exemplo, as casas têm janelas pequenas, varandas, salas e escritórios abertos. Já no Sul, a presença da madeira é muito forte, tem de todo tipo. As folhas de lata de azeite ou similares também são usados para revestir paredes. Apesar de ser uma região fria, são poucas casas com lareira. O fogão à lenha e a cozinha usada como sala de estar têm sido a solução preferida”, explica Günter Weimer.

Casa Arte, feita por uma artista uruguaio, na Prala Brava, em Santa Catarina (Foto: Humberto Medeiros)
Casa Arte, feita por uma artista uruguaio, na Prala Brava, em Santa Catarina (Foto: Humberto Medeiros)

Algumas casas chegam a ganhar destaque como obra de arte. Já imaginou, por exemplo, morar numa casa com fachada coberta por folhas de lata de tinta? Ou então com paredes de garrafa? Para Wherter Holzer, a arquitetura popular é uma das mais criativas e deve ser preservada, pois está desaparecendo no país.

“A arquitetura popular brasileira revela a cultura e o modo de vida de uma região. A técnica é passada de pai para filho. Os materiais empregados e a forma de construção mostram o lado criativo do morador. Mas, em alguns lugares, já não é possível encontrar esse tipo de construção. No Sul, por exemplo, as casas de fazer farinha, que já existem há 400 anos, pelo menos, estão desaparecendo”, diz Holzer

TAIPA E PALHA CONTINUAM SENDO USADAS NAS CONSTRUÇÕES POPULARES. MAS OBJETOS PLÁSTICOS TAMBÉM – As técnicas rudimentares de construção são reveladas a cada capítulo. A taipa, técnica à base de argila (barro) e cascalho, empregada por diversos povos desde a Idade Antiga, e típica no Brasil, tem no livro, como um dos exemplos, a casa em Caravelas, Bahia. Para arquitetos, esse material de baixo custo revela-se bastante resistente, desde que bem isolado. Num contraponto, o plástico das garrafas PET, também empregado na construção, dizem eles, pode produzir uma forma resistente de moradia, que, entretanto, fica exposta aos olhares externos.

Casa de madeira revestida com folhas de latasm en Curral Alto, distrito de Santa Vitória do Palmar, no Rio Grande do Sul
Casa de madeira revestida com folhas de latasm en Curral Alto, distrito de Santa Vitória do Palmar, no Rio Grande do Sul

Para o autor da pesquisa que deu origem ao livro, Demis Ian Sbroglia, ir a campo permite fazer contato com formas não só criativas, mas essenciais de se construir casas. Formas, segundo ele, sustentáveis, voltadas para a preservação do meio ambiente.

O livro está dividido em cinco capítulos: “Características regionais”, “Paisagens”, “Tipologias”, “Partes das edificações” e “Materiais de construção” e é voltado a todos os públicos que gostam de arquitetura. A linguagem foge do estilo acadêmico e assume um tom quase coloquial, tornando o passeio do leitor pelo interior brasileiro ainda mais cativante. No último capítulo, algumas casas chamam a atenção, como a Casa da Flor, em São Pedro da Aldeia (RJ), construída por Gabriel dos Santos, trabalhador das salinas da região, com refugo de obras e materiais encontrados no lixo; e a Casa Arte (foto da capa), em Florianópolis (SC), erguida pelo uruguaio Jaime Machado, que utilizou garrafas de vidro em substituição aos tijolos.

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