30/10/2006

Popular, sim. E com qualidade também

Fonte: O Estado de S. Paulo

Construtores desenvolvem projeto para habitação de baixa renda com conceitos de arquitetura sustentável

Ambientes com iluminação e ventilação direta, captação de água da chuva para uso não-potável, infra-estrutura de lazer e apenas 30% da área do terreno construídos, privilegiando o verde. A descrição – que poderia estar em panfletos de diferentes empreendimentos pela cidade – é a base do “Projeto-piloto de habitação popular sustentável”, desenvolvido para a Região Metropolitana do Rio, para famílias com renda entre um e cinco salários-mínimos. A proposta é do Sindicato da Indústria da Construção do Estado do Rio (Sinduscon-Rio) e tem apoio da Federação das Indústrias do Estado (Firjan).

Depois de muitos anos sem ter uma política habitacional definida, o país começa a registrar uma mobilização em prol do estudo de opções para reduzir o déficit habitacional. E sem perder de vista a qualidade arquitetônica. Mais que isso, visando à sustentabilidade dessas habitações – ou seja, esses projetos devem incluir, por exemplo, a preocupação com o consumo de água e energia elétrica.

É nesse espírito, por exemplo, que a Caixa Econômica Federal (CEF) está promovendo a terceira edição do “Prêmio Caixa/Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB) – Concurso público nacional de idéias e soluções para a habitação social no Brasil”. E que a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, a FAU, da UFRJ, criou seu Grupo de Arquitetura Sustentável.

– Na última edição do prêmio Caixa/IAB, foram 150 inscrições de profissionais e 300 de estudantes. A qualidade surpreendeu. Para esta edição é grande a expectativa – diz Carlos Fernando Andrade, coordenador do evento pelo IAB.

Prédios com quatro imóveis por andar

Um ícone de qualidade arquitetônica, quando se fala em habitação popular, é o Conjunto Residencial Prefeito Mendes de Moraes, o Pedregulho, de Benfica. O projeto, de 1947, do arquiteto Afonso Reidy, recebeu painéis assinados por Burle Marx e Portinari e virou um marco da arquitetura modernista internacional. Reidy também é o autor do Conjunto Habitacional Marquês de São Vicente (de 1952), o conhecido Minhocão, da Gávea.

– Além da beleza arquitetônica, a construção tem bons apartamentos, de tamanhos variados, e inclui uma proposta de socialização. O Pedregulho é quase um manifesto do que deveria ser uma habitação popular. Infelizmente, com o déficit que temos hoje dificilmente poderíamos reproduzir este projeto. Mas isso não quer dizer que não possa haver outros de qualidade – opina Andrade.

O presidente do Sinduscon, Roberto Kauffmann, conta que a idéia é criar pequenos bairros, de até 500 apartamentos, que seriam distribuídos em prédios de quatro a cinco andares, com quatro unidades cada. O imóvel, de dois quartos, teria 46 metros quadrados e custaria R$50 mil, mas seria subsidiado. A meta é ocupar vazios urbanos, às margens da Avenida Brasil e da linha férrea:

– Já há 200 terrenos identificados na Região Metropolitana do Rio, onde seria viável a implantação. Isso corresponde a cerca de cem mil novas moradias.

A presidente da Caixa Econômica Federal, Maria Fernanda Coelho, se interessou pelo estudo do Sinduscon-Rio:

– A proposta é arrojada e inovadora, e será analisada pela Caixa e pelo Ministério das Cidades.

Caminhos que levam ao uso racional dos recursos naturais.
Especialistas enumeram itens viáveis para implantação em projetos de habitação popular

Especialistas em arquitetura sustentável (a que prevê o uso racional dos recursos naturais) garantem que há técnicas viáveis para projetos de habitação popular. E enumeram algumas delas (destas, as que estão incluídas no projeto do Sinduscon são captação de água da chuva e áreas verdes, além de pintura externa clara, ventilação e iluminação diretas).

Sem padrão: A primeira providência é desenvolver projetos específicos para cada terreno, levando em conta a rota do sol e a direção dos ventos. O que quer dizer também que as plantas dos imóveis não devem ser estanques. Pode haver padrão de tamanho de janelas e portas, mas quantas e em que paredes, isso, sim, varia de acordo com o local.

Água da chuva: A captação da água de chuva e uso para fins não-potáveis, como lavagem de carros e irrigação de jardim, também é viável e barata, reduzindo o uso de água tratada, muito mais cara para o consumidor.

Tratamento de esgoto: A sugestão é que, com um empreendimento feito em blocos, cada um tenha a sua estação de tratamento. Isso reduz o custo de implantação das redes. Estudo australiano mostra que a medida representa uma economia de 50%.

Aquecimento solar: Apesar do custo inicial muito mais alto (um chuveiro elétrico pode sair a R$15 e o sistema de energia solar, a R$800), dizem especialistas, o aquecimento solar se paga em dois anos, além de reduzir os investimentos em novas usinas.

Janelas: As janelas devem permitir abertura total do vão, ampliando a ventilação. Venezianas são bem-vindas, principalmente em fachadas voltadas para o Norte, que recebem o sol de meio-dia.

Telhado verde: Muito usado na Europa, o telhado verde (coberto por vegetação) é uma opção barata e eficiente para reduzir a temperatura interna.

Áreas verdes: Áreas verdes e revestimentos permeáveis em espaços abertos são importantes tanto para reduzir o risco de enchentes, como para diminuir a temperatura local.

Pé-direito: O ideal é que os apartamentos tenham pé-direito de três metros (o usual é 2,50m). Isto porque, como o ar quente sobe, quanto mais alto o pé- direito, maior a sensação de frescor.

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