03/12/2008

Por amor às raízes

Fonte: O Estado de S. Paulo

Mantendo a beleza do tempo, campineiros recuperam imóveis dos anos 20 e 30 em área de ferrovia

SÃO PAULO – Para a arquiteta e doutoranda da Unicamp Ana Aparecida Villanueva Rodrigues, três posturas caracterizam a ocupação urbana da área ferroviária das companhias Paulista e Mogiana, em Campinas. A primeira, de ordem funcional (e devastadora), propõe que as casas “velhas” sejam substituídas por “novas”. Casas térreas por edifícios, uso residencial por comercial e assim por diante, sem atenção a questões históricas.

A segunda atitude busca salvaguardar imóveis considerados de valor histórico ou artístico pelos órgãos de preservação do patrimônio. Em geral, por meio de um mínimo de intervenções possíveis, para garantir autenticidade ao edifício. Como acontece, por exemplo, no prédio que abriga o Museu da Cidade, na Avenida Andrade Neves, restaurado pela arquiteta.

Existe, porém, uma terceira via. Mais pessoal e menos atrelada ao poder público – vertente exercitada por alguns campineiros, para quem, na escolha de um imóvel, pesam outros referenciais. Pessoas que decidiram habitar um imóvel antigo por opção e que partiram para a restauração pelo simples desejo de conviver com o passado de forma afetiva e próxima.

Caso da própria Ana, que mora numa rua da antiga Vila Industrial. “Trata-se de uma casa de 55 m² (ampliada para 74 m², em dois anos), construída em 1928 para abrigar uma família de operários”, conta. “Procurei olhar o imóvel como um objeto estético e o resultado está aí – a casa antiga virou nova.”

Se, de um lado, seu projeto de restauração buscou uma arquitetura comprometida com a construção original e o bairro, de outro, não abriu mão de intervenções pontuais. “Restaurar não significa apenas colocar um espaço em boas condições de uso. É preciso manter a beleza do tempo”, diz. Assim, as fachadas externas da casa exibem caixilhos e vitrais restaurados, enquanto as paredes aparecem em tonalidades atuais e não pintadas de modo uniforme: rosas e azuis parecem reproduzir as marcas deixadas pelo tempo.

ESTILO ART DÉCO – Campineiros por adoção – e apaixonados pela cidade -, o ator Marcos Spézi e o psicólogo Péricles Mariotto também fazem de um imóvel de época o espaço de vida e trabalho. “Da janela do nosso antigo apartamento, no Largo de São Benedito, gostava de observar as linhas geometrizadas deste sobrado… Sempre achei a construção bonita, mas lamentava o estado de abandono”, lembra Spézi.

De fato, a casa corria o risco de ser demolida para dar espaço a um estacionamento. Para alegria da dupla, porém, o negócio não prosperou e o imóvel foi colocado para alugar. Após negociar o valor da reforma com o proprietário – que acabou sendo descontado do aluguel -, Marcos e Péricles conduziram a restauração por conta própria, pesquisando o estilo art déco, preponderante na década de 30, e as técnicas de construção. “O sobrado foi construído com o que havia de melhor na época, o que ajudou na sua preservação. Os lustres são de cristal fosco, a marcenaria das portas e da escadaria, de jacarandá”, realça Marcos. Para colocar a casa em condições rápidas de uso, primeiro foi restaurado um dos quartos; depois, a sala, os banheiros, os outros quartos e, finalmente, o quintal.

Há três anos à frente do Núcleo Cultural Alquimia – o centro cultural e de estudos implantado no sobrado da Rua Luzitana -, Marcos e Péricles acreditam que o trabalho e os custos das obras valeram a pena. “Os alquimistas queriam transformar elementos em ouro e encontrar a pedra filosofal para garantir a vida eterna. Foi mais ou menos o que fizemos. A velha casa se transformou e, por meio da arte, oferecemos vida às pessoas”, diz Marcos.

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