11/08/2009

Pratos decorativos atravessam os séculos

Fonte: O Estado de S. Paulo

Os pratos decorativos atravessaram os séculos, e as boas coleções são valorizadas

Na parede da sala da estilista Isabella Giobbi, pratos pintados pelo italiano Pietro Fornasetti (Fotos: Zeca Wittner)
Na parede da sala da estilista Isabella Giobbi, pratos pintados pelo italiano Pietro Fornasetti (Fotos: Zeca Wittner)

Símbolo de tradição no passado, quando famílias abastadas faziam questão de imprimir suas iniciais e brasões em louças da mais fina porcelana, os pratos decorativos ganharam diferentes funções ao longo do tempo, servindo de tela para retratos históricos (como Napoleão e Josefina em modelos Limoges) ou fonte de inspiração para artistas como Picasso e Jean Cocteau. Mas, se outros elementos figuram hoje na pauta familiar como objetos de desejo, é importante lembrar que, até algumas décadas atrás, mesmo os lares mais simples guardavam peças especiais nos cômodos da casa. Há, no entanto, quem ainda valorize uma boa coleção de pratos. Aqui, quatro personagens mostram que não se trata de uma arte perdida.E mais: que essas peças podem dar charme a qualquer residência. 

Na sala de jantar de Vera Chadad, organizadora do tradicional Salão de Arte do Clube A Hebraica (de 18 a 23 deste mês), a coleção de pratos ingleses do século 19 está disposta sobre um bufê de rádica art déco. O conjunto de azul e branco da porcelana contrasta com os suportes mineiros de estilo barroco que acomodam as sopeiras. Com exceção destas, adicionadas mais recentemente, os pratos, travessas e rosbifeiras formam o mesmo jogo há duas décadas, ou seja, desde que Vera adquiriu as louças em um antiquário.

“Elas vieram de um único colecionador. Meu marido ficou entusiasmado e arrematamos tudo para não perder a oportunidade”, conta. Do conjunto, Vera gosta especialmente das rosbifeiras, raras. “Em mais de 20 anos trabalhando com arte, vi apenas meia dúzia delas.” As peças favoritas da curadora, no entanto, são dois pratos que estão no living, da Companhia das Índias, penduradas junto a obras de arte. “Foram os primeiros que comprei, acabei me apegando a eles.” 

No muro da casa da artista plástica Patricia Magano, pratos de porcelana e faiança pintados com ouro e platina líquidos
No muro da casa da artista plástica Patricia Magano, pratos de porcelana e faiança pintados com ouro e platina líquidos

Se a coleção de Vera prima pelo requinte clássico, a da estilista Isabella Giobbi é pura modernidade. Os 12 pratos instalados em fileiras horizontais no living de seu apartamento são do italiano Piero Fornasetti (1913-1988), criador da série Tema e Variazioni, com 350 variações de peças cujo tema é uma mulher de rosto enigmático. Isabella adquiriu as peças quando morava em Milão, onde estudou Moda e Arquitetura nos anos 1990. “Ele fazia esse trabalho à mão, numa época em que não existia tecnologia gráfica, nos anos 40 e 50”, diz. O conjunto tem imagens de um rosto feminino no visor de um carro, um prato com talheres dentro dele e duas figuras masculinas – uma delas, diga-se, parte de uma tiragem exclusiva de seis. Isabella começou a interessa-se por pratos decorativos ao passar, um dia, diante do espaço do artista. “Minha avó, no Brasil, tinha pratos com desenhos de macarrão, que ela usava na mesa. Só descobri que eram do Fornasetti quando os vi na loja”, lembra. “Na época vivia de mesada, muitas vezes ficava na dúvida entre comprar um sapato Prada ou um prato”, diverte-se a estilista. 

DE MÃE PARA FILHA – Candy Brown, estilista americana de alta-costura e radicada no Brasil há mais de 30 anos, exibe a coleção de influência art nouveau na sala de jantar de sua casa. Os pratos foram pintados por sua avó, Aurore Dessureault, nascida em 1885. “Ela fez um conjunto de louças para cada uma das cinco filhas e eu acabei herdando essas peças da minha mãe”, conta. “Na época, era costume as mulheres ganharem um conjunto quando casavam.” 

Natural de Boston, Candy fez faculdade de Línguas e Filosofia no Marymount College, na Califórnia, onde conheceu o futuro marido, que a trouxe ao Brasil, em 1977. A coleção, da marca francesa Limoges (nome da cidade famosa por suas porcelanas), desembarcou por aqui com o casal . “Os pratos ficaram guardados por muito tempo; lembro que eram considerados fora de moda quando eu era menina”, diz Candy. Hoje a estilista não poderia achá-los mais atuais. “Os pratos são lindos e dão um toque geométrico ao ambiente.” 

INSPIRAÇÃO NA MITOLOGIA  – Na acolhedora sala de refeições da casa onde mora, com paredes pintadas de amarelo- ocre, a artista plástica Patricia Magano instalou 12 pratos desenhados por ela há oito anos. As peças mostram figuras de pássaros com rostos humanos. “Minha inspiração foram personagens da mitologia grega e azulejos antigos de pássaros portugueses”, explica Patricia. “O resultado é um visual híbrido, com referências folclóricas.” A artista plástica, que em 2007 foi convidada para fazer um prato para o leilão do Museu Lasar Segall, lembra que idealizou a coleção, originalmente, para a fazenda da família, em Santa Branca, interior de São Paulo. “Fiz as peças como parte da louça da casa, acho um luxo esse tipo de detalhe.” Mas as peças ficaram tão bonitas que ela decidiu instalá-las em sua casa, no Jardim Europa. Na área externa, estão os pratos de porcelana e faiança e pintados e ouro e platina líquidos.  

UM TOQUE DE HISTÓRIA – A história dos pratos decorativos remonta à porcelana chinesa, surgida no século 1 d.C.. Louças do país asiático começaram a chegar à Europa no século 14. Mas só no início do século 16, depois que Portugal estabeleceu rotas comerciais com o Oriente, a China passou a produzir especialmente para o Ocidente. Os pratos azuis e brancos, que se tornaram parte significativa das exportações, eram chamados de porcelana kraak, derivado do holandês caracca (navio mercantil português). Essas peças, no entanto, ficaram famosas como Companhia das Índias, empresa de navegação que as transportavam. Enquanto isso, a demanda europeia por objetos utilitários crescia. No início do século 18 surgiram as primeiras fábricas de porcelana na Europa e a procura pela produção chinesa caiu. Mas os Estados Unidos, nova nação independente, passaram a negociar com aquele país e a fazer encomendas. 

No Brasil, toda a porcelana era importada até a época do Império. O antiquário Eduardo Brunaro, que tem uma coleção de mais de cem pratos borrão, conta que os senhores de fazenda encomendavam serviços de louça para suas vastas propriedades. “O borrão é a porcelana na qual os chineses erravam o tom do decalque, a tinta vazava e as linhas dos desenhos ficavam mal definidas”, diz. Essas peças eram consideradas refugo, geralmente usadas por escravos . Ironia do tempo, hoje se tornaram raras. “Quanto mais borrado, mais caro é.”  

LEILÃO REÚNE 48 ARTISTAS – Todos os anos, geralmente em outubro, o Museu Lasar Segall promove o Leilão de Pratos para a Arte, que está chegando à 12ª edição. O evento, que ajuda a arrecadar fundos para as atividades do museu, foi idealizado em 1998 pelo então diretor Marcelo Araújo. Na época, ele inspirou-se na coleção de pratos do restaurante Trio para fazer o leilão.  

Lá os pratos são expostos e vendidos, atraindo público diversificado, de membros da Associação Cultural de Amigos do Museu a colecionadores. “Ter uma peça de um dos 48 artistas convidados todos os anos é uma oportunidade única”, diz Jorge Schwartz, atual diretor do museu. Já participaram do evento, entre outros, Beatriz Milhazes, Paulo Mendes da Rocha e Jac Leirner. Em 2006, o prato do artista Tunga foi vendido pelo lance de R$ 21 mil.  

AS DICAS DE QUEM CONHECE – Desde moleque, como ele mesmo diz, o arquiteto René Fernandes Filho é fascinado por pratos. “Na casa dos meus amigos, via coleções de capotar”, lembra o profissional, que iniciou, há cerca de cinco anos, sua própria coleção. “É um pouco de Companhia das Índias, um pouco de contemporâneos”, descreve.  

René, que já participou do leilão de pratos do Museu Lasar Segall, acha que não é necessário ter um grande número de peças para criar um efeito bonito. “A pessoa pode misturá-las com obras de arte, por exemplo. No meu escritório, tenho dois pratos em preto e branco junto a alguns desenhos nas mesmas cores, sobre uma parede escura.” 

Segundo o arquiteto, vale tudo na hora de criar uma composição: pode ser até um único prato instalado sobre uma porta. “Só não dá para fazer um conjunto com pratos comuns. Eles têm de ter charme, personalidade”, opina. E dá mais algumas dicas: “Criar uma coleção com um tema comum garante harmonia visual, e as peças não precisam se limitar à sala de jantar ou à copa. Elas podem ser colocadas na sala, hall e corredores”. 

O antiquário Eduardo Brunaro concorda com a sugestão de René. “Podem ser pratos com frutas, pássaros, peixes, flores ou imagens históricas. Mais do que o valor comercial de uma peça, no entanto, é seu significado emocional, se fez parte de uma viagem ou foi presente de uma pessoa querida.” 

Segundo o especialista, um prato da Companhia das Índias, do século 18, custa em média R$ 1.200. Já um modelo borrão está na faixa dos R$ 600. “O borrão é mais caro que a louça tradicional do mesmo conjunto”, explica. Além das lojas de decoração, peças podem ser encontrados em leilões, brechós, família vende tudo e feiras de antiguidades, onde são vendidos também ganchos próprios para instalar os pratos nas paredes.

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