10/11/2008

Prédio do Masp completa 40 anos

Fonte: Jornal da Tarde

O vão livre, o maior do mundo e responsável pela fama de construção ‘que flutua’ foi a solução de Lina Bo Bardi para a única exigência dos donos da área: preservar a vista

A inauguração estava marcada para as 10h30. Tudo foi cronometrado, mas a rainha da Inglaterra atrasou 20 minutos. Em se tratando de São Paulo, a desculpa para o atraso não poderia ter sido outra, se não o trânsito. No caminho do centro até a Avenida Paulista, uma multidão fez questão de acenar para Elizabeth II e um modesto congestionamento se formou. Assim que desceu do carro, no Trianon, os fotógrafos brasileiros se estapearam por uma imagem: “queen, queen, olha pra cá, dá um sorriso”. De modo que há exatos 40 anos, ela foi a grande atração do dia em que a nova sede do Museu de Arte de São Paulo (Masp) foi inaugurada.

Embora também estivesse presente, Lina Bo Bardi não saiu nas fotos dos jornais do dia seguinte. E sem ela, aquele “palácio de ferro, vidro e concreto, quase solto no ar” não existiria. Foi Lina quem projetou a nova sede do museu criado 21 anos antes pelo jornalista, dono dos Diários Associados, e ex-embaixador do Brasil na Inglaterra, Assis Chateaubriand. As obras da nova sede começaram em 1957. O espaço reservado ao acervo no prédio dos Diários Associados, no centro, já não era suficiente nem adequado por conta do calor das rotativas do jornal. Há tempos Chateaubriand queria nova sede. Descobriu o lugar quando passou de carro, numa madrugada, em frente ao Trianon.

Não demorou muito para que o desenho de Lina, mulher do co-fundador do museu Pietro Maria Bardi, fosse parar na mesa do prefeito Adhemar de Barros. “É uma beleza, mas diga-me uma coisa minha senhora, isso vai agüentar?” Quando a obra começou essa dúvida não era apenas dele. Afinal, a arquiteta previa um edifício com vão livre de 74 metros de largura – o maior do mundo. A idéia, como ela mesma explicou mais tarde, estava longe de ser uma “frescura arquitetônica”. Se pudesse teria feito tudo diferente. Mas quando a família proprietária do terreno doou a área para a Prefeitura colocou uma condição: aquela vista para a cidade teria de ser preservada, caso contrário o terreno voltaria aos herdeiros. “O museu fez sua parte, mas a cidade não”, afirma José Roberto Teixeira Coelho, curador do Masp, sobre os prédios e vias que se impuseram na paisagem.

Toda a área do museu é municipal. Na época da inauguração foi aprovada uma lei que concedia o uso do prédio, por 40 anos, aos administradores do Masp. O prazo vence no dia 30 de novembro. Antes disso, o Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico deve encaminhar à Câmara um projeto de lei para prorrogar a concessão.

Para colocar o Masp de pé, foram necessários 10 mil metros cúbicos de concreto com os quais seria possível construir 14 edifícios de dez andares. A quantidade de aço usada na obra ligaria São Paulo a Brasília – 1.200 quilômetros . Nos últimos meses, na pressa para deixar tudo pronto aos olhos da rainha, 1.300 operários trabalharam das 7h às 20h todos os dias. Por várias vezes, os próprios engenheiros que atuaram na obra se fizeram a mesma pergunta do prefeito. Quando o apoio da viga estava sendo retirado, os dias foram de apreensão. “Aos poucos soltávamos o apoio. E conseguíamos observar, no dia seguinte, se a estrutura estava descendo”, lembrou o engenheiro Roberto Rochitz, amigo e assessor de Lina durante as obras do Masp. Foi assim por uns cinco dias. “Era muita emoção.”

Mas não foi pela pressa ou por falta de recursos que o edifício saiu assim com concreto à vista e sem esconder as instalações de eletricidade e os encanamentos. Sem mármores, lustres, rodapés. Na brutalidade do acabamento, a arquiteta quis deixar claro que sua obra não atenderia ao “esnobismo” dos intelectuais. Queria um museu para o povo. “Hoje deve estar se revirando no túmulo”, disse Rochitz.

Contrariado com as mudanças feitas no museu, ele não vai mais lá. Os vidros foram cobertos por persianas e os cavaletes onde as peças eram expostas, substituídos por paredes. Tudo sob o argumento de que as obras corriam risco. “A idéia era de liberdade, mas do ponto de vista da preservação dos quadros era inviável”, explicou Eunice Sophia, coordenadora do acervo e funcionária do Masp há 27 anos.

Eunice tem bastante tempo de casa, mas está longe de alcançar Luis Hossaka. Dos 80 anos de vida, 58 foram dedicados ao museu. Sua história com o Masp começou no dia em que foi conhecer a máquina que imprimia os jornais dos Diários Associados. Soube dos cursos de arte, dos quadros e não saiu mais de lá. Na inauguração do museu, infiltrou-se no prédio, sem autorização, para fotografar a rainha. Daquela cerimônia, lamenta apenas a ausência de Chateaubriand, que falecera cinco meses antes. Para homenagear o grande entusiasta do museu, Lina colocou perto da entrada uma pedra. Há muitas histórias sobre o monumento. Uma delas é de que a pedra foi escolhida por lembrar a fisionomia do jornalista. Chateaubriand desejaria que essa não fosse a versão verdadeira.

Há paulistanos que nunca ultrapassaram os limites da pedra para se aventurar pelo mundo da arte no museu, como o aposentado Raul de Freitas, de 82 anos. “Paulistano é compromissado, não dá tempo.” Mas quando recebe amigos de outros lugares, a fachada do museu é parada obrigatória. “É um cartão postal, né.” Em média, 2 mil pessoas passam pelo museu diariamente. Entre os visitantes ilustres, está o arquiteto Oscar Niemeyer. Ele esteve no Masp em 1987 e deixou um bilhete para Lina: “Só hoje visitei seu museu. É muito bonito. O melhor e mais belo museu que conheci.”

Cronologia
1946
Os italianos Pietro Maria Bardi e Lina Bo Bardi deixam a Europa do pós-guerra e mudam-se para o Brasil. Na bagagem, trazem obras de arte italianas

1947
Pietro e Lina conhecem no Rio de Janeiro o jornalista Assis Chateaubriand. Juntos, decidem criar um museu em São Paulo, o que ocorre no mesmo ano

No dia 2 de outubro, o Museu de Arte abre suas portas na Rua 7 de abril. Oacervo é composto por 200 obras. Uma tela de Botticelli foi doada no dia da inauguração

1953
Obras do Masp começam a ser expostas em museus de outros países. A turnê dura quatro anos. As obras passam por Londres, Paris e pelo Metropolitan Museum of Art, em Nova York

Naquela época, a crise já batia na porta do Masp. Enquanto as obras estavam expostas nos Esatados Unidos, a galeria Knoedler pediu o seqüestro como pagamento de uma dívida de
5 milhões de dólares

1957
O projeto de Lina Bo Bardi para a sede do museu na Paulista começa a sair do papel. A obra foi executada pela construtora do engenheiro Figueiredo Ferraz

1968
É inaugurada nova sede no dia 7 de novembro, com a presença da rainha da Inglaterra,
Elizabeth II

Lei municipal concede à administração do Masp o uso do terreno e do prédio na Avenida Paulista por um prazo de 40 anos. O prazo vence no fim de novembro

1969
No mês de março, o prédio é aberto ao público

1996
Iniciada a revitalização do museu, que durou até 2001. Um pavimento, o 3º subsolo, foi criado

2007
Dois quadros, um de Portinari e outro de Picasso, são roubados e encontrados duas semanas
depois. Especialistas apontam falhas na segurança

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