17/09/2006

Preserve alvenaria e revestimento

Fonte: O Estado de S. Paulo

Essa é a dica de arquiteta para reformar sem descaracterizar o apartamento antigo, com mais de 50 anos

Grandes como já não se fazem mais, alguns com projeto de grife, os condomínios cinquentões entram na melhor idade como a “jóia da coroa” entre as possibilidades de moradia da cidade. “É um ótimo negócio, mas para quem pode”, diz José Roberto Bernasconi, presidente do Sindicato Nacional das Empresas de Arquitetura e Engenharia Consultiva (Sinaenco).

E poucos podem. “A maioria não tem garagem, pois ainda não havia a obrigação legal de incluí-las no projeto”, diz. O que os torna inviáveis para boa parte da classe alta, que financiou e ocupou esses condomínios há 50 anos. “As famílias precisam de quatro, cinco vagas”, diz.

A mesma legislação era mais generosa com relação ao pé-direito, que deveria ter no mínimo 2,70 metros. Em 1972, essa altura foi reduzida para 2,50 m, segundo Bernasconi para melhorar o aproveitamento do reduzido espaço urbano. Há casos de pé-direito com até 3,30 metros. “É como se fosse uma casa”, compara o músico Arcádio Minczuk, que toca oboé na Orquestra Sinfônica da Osesp e mora em um apartamento de três quartos e 235 metros quadrados, construído em 1967 em um prédio revestido de pastilha cor-de-rosa em Higienópolis, região central de São Paulo, um desses “poucos” citados por Bernasconi.

O músico conta com duas vagas na garagem, um achado, mas não precisaria tanto. “Nossos filhos estudam aqui perto, trabalho na Osesp, minha esposa é promotora. Fazemos tudo a pé”, conta. Apesar do prédio não ter área comum superequipada, a família conta com o São Paulo Atlético Club (Spac), o tradicional “clube inglês”, para compensar.

Minczuk pagou R$ 270 mil pelo apartamento há 12 anos. Além dos quartos, tem escritório, lavabo e dois quartos de empregada. A reforma, encerrada há dois meses, consumiu outros R$ 200 mil. “Refizemos as instalações elétrica e hidráulica, mas preservamos boa parte dos revestimentos”, diz. O músico alterou pouco a planta, para alinhar as portas e incorporar um dos quartos de empregada à área de serviço.

Alto padrão 

Quase todos os prédios do bairro são de alto padrão, vários deles criados pelo excêntrico Artacho Jurado, arquiteto autodidata, filho de espanhóis anarquistas, e Rino Levi, precursor da moderna arquitetura brasileira, a partir dos anos 50. Assim como os que ocupam a Duque de Caixas, o Largo do Arouche e a República. Eles tendem a voltar ao mercado, ou trocar de mãos, em função da morte dos proprietários originais.

Minczuk conta que o irmão, o maestro Roberto Minczuk (diretor artístico e regente titular da Orquestra Sinfônica Brasileira e da Filarmônica de Calgary, no Canadá), também mora em um apartamento desse tipo, reformado e modernizado, só que na praça Roosevelt.

“Os condomínios da avenida São Luiz são ainda mais antigos, das décadas de 30 e 40”, conta a arquiteta Marta Rosolino, responsável pela reforma de um apartamento com 300 m² nos jardins, projetado por David Libeskind. “Além do projeto, a execução da Anhembi foi ótima. A instalação hidráulica estava perfeita, pois é tudo em cobre ou ferro fundido da Barbará. A elétrica só foi trocada na área social, para atender aos projetos de iluminação”, diz. A reforma criou um banheiro para o segundo quarto a partir do lavabo, que tinha 6 m², e reconstruiu a cozinha.

Em casos de projetos de valor histórico como esse, Marta diz que é preciso preservar a alvenaria e os revestimentos, “para não descaracterizar. Fiz uma intervenção em um apartamento do Vilanova Artigas, que tinham pilares revestidos com pastilhas na sala. Foram todas preservadas”, conta. 

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