19/10/2009

Quando fugir da regra cai bem

Fonte: O Estado de S. Paulo

Livro de Roland Beaufre e Claude Berthod mostra o décor de extravagantes históricos e contemporâneos

Embora reconhecível, o décor extravagante não se caracteriza como um estilo. Seria mais um manifesto, evidência de atitude, do espírito e da alma de seu autor. Ninguém nasce extravagante. Nem a extravagância é defeito, perversão ou dádiva divina, mas qualidade ou capacidade adquirida, trabalhada. É provocação, desafio, reação à banalidade, antídoto para o tédio, desejo de expressão ou simplesmente diversão. Sugere audácia, individualidade, autoconfiança (ou não) como inerentes da personalidade de quem se permite ser e viver de forma original.

1. Mark Brazier-Jones criou natureza morta sobre a mesa Pumpkin, de sua autoria (Fotos: Divulgação)
Peças ousadas e extravagantes (Fotos: Divulgação)

É comum dizer dos ingleses que são um povo extravagante. Levam a fama de se sentirem tão superiores a outros povos que não estariam nem aí para o que se diga deles. Seguros de seu pedigree, não se importam, por exemplo, de usar roupas velhas e puídas ou misturar à mesa porcelana, copos e talheres desconjuntados.  

Independentemente de causas psicológicas profundas, o fato é que, na decoração, um pouco de extravagância cai bem. Sacudir a monotonia, romper com o tradicional, transformá-lo e reeditá-lo é certamente avançar, dar um passo à frente. Montaigne, em 1582, já dizia que ser extravagante é fugir das normas. E os excêntricos, em geral, acabam sempre lembrados. Ludwig II da Bavária, de tanto brincar de ser extravagante, perdeu palácios, fortuna, a coroa e a cabeça. Isso sem falar na figura de Facteur Cheval, que passou 30 anos catando pedras na rua para fazer o seu Palácio Ideal, uma construção inabitável que virou ponto turístico em Hauterives, na região de Drôme, na França. A ambição do surrealista Salvador Dali, como ele mesmo dizia, era ser inesquecível. Fez por isso e conseguiu.

SERES INFERIORES – Para um psicólogo, o fato de uma pessoa rodear-se de objetos que chamam a atenção pode indicar timidez, necessidade de refugiar-se atrás de algo que desvie o olhar alheio de sua própria pessoa. Já os puristas verão com olhar crítico “a necessidade de ostentação” e já houve, como o arquiteto e teórico austríaco Adolf Loos, quem pregasse o deserto dentro de casa e considerasse o ornamento um sinal de degradação. Seu ensaio Ornamento e Crime, publicado em 1908, causou grande polêmica, pois, apesar de supostamente moderno, trata do assunto de forma racista, denunciando os adeptos do enfeite e do ornamento como seres inferiores. 

Óbvio que um décor extravagante pode cair no barroco, no culto do excesso, na excrescência, na teatralidade, no rock, no punk e mesmo em Bollywood. É justamente esta mistura de liberdade e diversidade que vai determinar o resultado final ou mutante de uma ambientação extravagante. Não é preciso ser rico nem famoso para se chegar lá. Para conseguir um interior ou exterior não convencional, vale mais ter bossa, imaginação e a postura de que não vale adquirir, possuir e depois ter medo de misturar. O décor extravagante é um trabalho de autor, muito pessoal, daí não se enquadrar em nenhum padrão convencional. Importante é que tenha o poder de sempre surpreender.

Em tempos mais recentes, o único artista plástico que desafiou a excentricidade de Salvador Dali foi Andy Warhol. Para ele, sinal de riqueza era possuir grandes espaços vazios. A casa em Manhattan onde morreu, tinha 27 aposentos e, neles, apenas bugigangas. Em leilão memorável de seu espólio, um cachorrinho de pelúcia alcançou US$ 77 mil e o desenho de uma lâmpada feito por Jasper Johns, US$ 242 mil, como que a querer provar a tese do próprio artista de que a relação entre arte e dinheiro sempre foi incestuosa. 

O livro Extravagância, o Mundo dos Interiores Fantásticos, de Roland Beaufre e Claude Berthod, uma edição da Flammarion, junta em um mesmo volume o décor de extravagantes históricos e contemporâneos. Em comum, apenas a força da expressão de suas personalidades e fantasias individuais.  

FANTASIA E MAQUAGEM – O primeiro retratado é o escritor Pierre Loti, nom de plume de Julien Viaud, que no século 19 recomprou a casa em Rochefort onde viveu durante a infância. Ali, como em um teatro, entre salões turcos, mesquitas, aposentos árabes e uma monumental coleção de cerâmicas africanas, recebia para jantar fantasiado e maquiado.  

Mais contemporânea é a morada londrina de Andrew Logan, escultor inglês, que desde 1980, com o namorado Michael Davis, vive numa casa com teto de vidro e cores amarelas, pinks, azuis e verdes. Considerado o Fabergé contemporâneo, trabalha com espelho colorido e massa dourada e é amigo de celebridades como Elton John e Koo Stark e já acorda fantasiado. Sai sempre com algo na cabeça, uma coroa ou chapéu estilizado. O terno impecável e com detalhes, será sempre colorido.

Voltando à França, em Ury, perto de Fontainbleau, a extravagância do casal Lalane encanta. Ali desde 1954, François-Xavier, com seu bestiário de macacos, ovelhas, vacas, hipopótamos e ursos de bronze, e Claude, com suas flores, frutas, folhas mãos ou pares de lábios, vivem em perfeita harmonia. A pedido de Yves Saint-Laurent, Claude esculpiu o busto de Veruska, a Gisele Bündchen de então. 

Os designers André Dubreuil, que diz não ter dinheiro para comprar seus próprios móveis e objetos neobarrocos de bronze, metal dourado e cabochons, Marco Geltz, no palácio de cristal que criou para si mesmo, e Tom Dixon, com sua parede revestida com retalhos de mármore, são donos e autores de três interiores de fazer cair o queixo, onde misturam o design produzido por eles com aqueles de Bugatti, Carlo Molino, Gio Ponti e mais achados em feiras e brechós. 

TRAVOLTA COM BUDDHA – Os interiores “subversivos” da dupla Gilbert & George são um resumo curioso do século 19, com cerâmicas de todas as cores e formatos, entre móveis originais do movimento Arts & Crafts. Na casa de Pierre e Gilles, cuja arte e ganha-pão são as fotos tiradas por Pierre e sobrepostas pela pintura de Gilles, ou seja, os retratos que fazem para Madonna, Nina Hagen, Sylvie Vartan, Claudia Schiffer e outras que ali vão para posar, o décor lembra um mix de John Travolta com Buddha, Ludwig II da Bavária com Barbie, e Renoir com calendário de supermercado.

Remontando ao início do século, temos a casa de Vanessa Bell em Charleston, onde paredes, portas, mesas, cadeiras e até a banheira ganharam cores e estampas. Ali ela viveu desde 1916 apaixonada por Duncan Grant, que nunca dispensou o namorado David Garnett, o qual, por sua vez, mais tarde casou-se com Angelica, a filha de Vanessa com Clive Bell. Tinha de ser no mínimo extravagante o pano de fundo de uma vida como a dessa ousada artista.  

No livro, também a casa do pintor Gérard Garouste e da designer barbare Elizabeth Garouste, carregada de antiguidades e de obras de autoria dela com seu ex-parceiro de trabalho Matia Bonetti e que já são peças cult.  

Divertido e inspirador é ver como morava, em preto e branco, o pintor, escultor e designer Piero Fornasetti e também como o arquiteto e designer Gaetano Pesce projetou a casa de um cliente que passou a pisar em placas de resina no chão como se caminhasse sobre telas abstratas, a passar por portas em formato de uma grande mão e a fazer refeições numa mesa de resina com pés assimétricos e cores contrastantes. (http://www.mariaignezbarbosa.com/).

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