01/12/2009

Quando o móvel vira uma obra de arte

Designers da Ovo, ateliê dedicado a móveis e objetos decorativos, buscam inspiração no cinema, na literatura, na dramaturgia e nas ruas para criar suas peças

Rio de Janeiro – “O ovo revela o acabamento / a toda mão que o acaricia, / daquelas coisas torneadas / num trabalho de toda a vida”. Na poesia “O ovo de galinha”, João Cabral de Melo Neto destrincha a, digamos, arquitetura dessa casca rígida. A partir da ideia, os designers Gerson de Oliveira e Luciana Martins batizaram seu estúdio-ateliê de Ovo. Filmes, livros, situações vistas na rua, tudo é levado pela dupla para o desenvolvimento de móveis e objetos de decoração. Para os criadores, essas peças são como um prolongamento do corpo; por isso, é tão importante pensar a interação delas com o usuário.

Hueltos Revueltos, para pendurar roupas e acessórios
Hueltos Revueltos, para pendurar roupas e acessórios

“É um processo que passa por vários momentos. Primeiro, a concepção, totalmente livre, uma mistura de dados imaginários. Depois, o que é extremamente trabalhoso: o desenvolvimento, a execução da ideia. Mas, nas duas etapas, sempre temos a preocupação de conferir ao projeto um grau de complexidade, seja nas várias camadas de leitura, seja na execução técnica. Algumas ideias rondam a nossa mente por muito tempo. E uma hora, elas precisam ser concretizadas. Ideia na cabeça dói”, diz Gerson.

Gerson e Luciana se conheceram na faculdade de cinema da Universidade de São Paulo (USP) e já trabalham com mobiliário e objetos decorativos desde 1991. Desde então, já participaram de importantes mostras, como o Brasil Faz Design (1996), exposição paralela à Feira de Milão, na Itália, e a Bienal Internacional de Arquitetura de São Paulo, na comemoração de seus 50 anos (2001). No currículo da dupla também estão incluídos prêmios e a participação em importantes livros de design, como o “& Fork”, da Phaidon, o “Young Designers America”, da Daab, e o “50 chairs”, editado por Mel Bryars. No Rio, as peças da dupla podem ser encontradas no showroom Hetty Goldberg.

Em entrevista por e-mail, Gerson de Oliveira revela o processo de criação de seus móveis em parceria com Luciana e faz comentários sobre a atual produção do design brasileiro de mobiliário. Confira.
Por que Ovo?

GERSON DE OLIVEIRA – Escolhemos Ovo por essa palavra agregar três idéias que nos são caras: criação; forma, quer dizer, a “embalagem da natureza”, e humor. Além do fato de ser um nome em português, mas que pode, porém, ser facilmente pronunciado e lembrado por pessoas de quaisquer nacionalidades. Gostamos também da ideia de deslocamento ao buscar um nome que pertence a um universo diferente ao do mobiliário. Além disso, há um conto da Clarisse Lispector que adoramos, “O Ovo e a galinha” e um poema lindo do João Cabral de Melo Neto chamado “O ovo de galinha”. Poderia mencionar várias outras associações. É uma palavra muito rica em significados, formalmente simples e linda graficamente.

Mesa Pronto-Socorro pode ser transformada em um cubo para quem quiser sentar (Foto: Divulgação)
Mesa Pronto-Socorro pode ser transformada em um cubo para quem quiser sentar (Foto: Divulgação)

Onde vocês buscam inspiração para criar os seus objetos?
GERSON – As inspirações normalmente vêm de lugares muito distintos, e não planejados. Um filme, um livro, uma pessoa, uma situação que vimos na rua, uma ideia que surge do nada. É interessante também sempre pensar na interação com o usuário. Os móveis e objetos mediam a nossa relação com o mundo. É quase como se fossem prolongamentos do corpo.

Os trabalhos com mobiliário de vocês, além de serem funcionais, propõem um diálogo com as artes. Como é o processo de criação?
GERSON – É um processo que passa por vários momentos. Primeiro, a concepção, totalmente livre, uma mistura de dados imaginários. Depois, o que é extremamente trabalhoso, o desenvolvimento, a execução da ideia. Mas, nas duas etapas, sempre temos a preocupação de conferir ao projeto um grau de complexidade, seja nas várias camadas de leitura, seja na execução técnica. Algumas ideias rondam a nossa mente por muito tempo. E uma hora, elas precisam ser concretizadas. Ideia na cabeça dói.

Os nomes dos objetos são bem criativos, também. Por exemplo, o biombo “I Beg Your Pardon” (“Eu peço seu perdão”) ou a mesa “Pronto Socorro”. O que vem primeiro: o nome ou o objeto?
GERSON – Depende. Em alguns projetos, o nome nasce junto. Em outros, a peça é batizada posteriormente. Mas, em todos os casos, entendemos o nome como um componente fundamental do projeto, não só como uma maneira pragmática de denominar um objeto. É mais uma camada de leitura, que traz o aspecto de comunicação do design. Muitas vezes, o nome modifica a forma como lemos o trabalho. Pode inserir uma camada de humor ou outras associações que talvez passassem despercebidas. É como se o trabalho se desdobrasse. 

Qual a sua avaliação da produção atual brasileira em design de mobiliário? Acha que há espaço para crescer tanto no mercado nacional como em outros países?
GERSON – A produção de design no Brasil passa por um período bastante bom, com crescimento em várias áreas: criativa, institucional, fabricação, divulgação etc. Quanto à presença em outros países, esta com certeza ainda é bem menor do que pode vir a ser. Porém, é interessante ver o grande número de publicações estrangeiras importantes (& Fork, Wallpaper, Axis, só pra citar alguns) com matérias sobre design brasileiro contemporâneo, ou mostras como a “Destination: Brazil” , no MoMA Store (a loja do Museu de Arte Moderna de Nova York), da qual nós participamos, que apresentam, com sucesso, o design brasileiro.

Qual a tendência atual em design de mobiliário? Aliás, há uma tendência?
GERSON – Com certeza percebo que a produção criativa atual é bastante variada, plural. E talvez o nosso ponto de vista, de criadores, não seja o ideal para identificar essas correntes, ou tendências. Provavelmente os mais capacitados pra detectar esses movimentos sejam os pesquisadores, curadores etc., por terem uma visão mais global. Mas, sem dúvida, uma das grandes vantagens deste momento é a possiblidade de diferentes linguagens coexistirem.

Qual peça é considerada o xodó da casa?
GERSON – Algumas peças da Ovo são produzidas há bastante tempo, muitas há mais de uma década – como a poltrona Cadê, a luminária Cubo, o cabideiro Huevos Revueltos. Acredito que essa longevidade seja um sinal de que elas continuam fazendo sentido pro usuário, o que é um ótimo sinal. E como tudo que é vivo, os xodós mudam. Em geral, os filhos mais novos têm mais atenção e ocupam mais espaço no coração num primeiro momento. Mas é muito gratificante ver o tempo passar e continuar gostando muito de determinadas peças. Às vezes, até passamos a entendê-las melhor que no momento em que foram produzidas.

SAIBA ONDE ENCONTRAR:
Rio de Janeiro
Hetty Goldberg – Av. Ataulfo de Paiva, 135 – sala: 410 – Barra da Tijuca – Telefone: 21 2259.6413

São Paulo
Ovo – Rua Gomes de Carvalho, 830, Vila Olímpia – Telefone: 11 3045.0309

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