21/07/2009

Rainha da sucata

Fonte: O Estado de S. Paulo

Ao trabalhar com restos de materiais, arame e barro, a artesã Beth Lima é uma das referências da Vila Madalena

Beth, em seu ateliê (Foto: Zeca Wittner/AE)
Beth, em seu ateliê (Foto: Zeca Wittner/AE)

Para Beth Lima, lixo nunca é lixo – e sempre pode virar arte. É por isso que a artesã e historiadora de formação guarda de tudo: pequenas pedras, fios, galhos… Pegar o que tem em volta e fazer o que dá vontade transformaram a artista em uma espécie de rainha da sucata.

Ela também é fascinada por vidro, material que já usou muito, e principalmente por metal e barro – “em que a poeira pode ser transformada novamente em barro”, lema de uma artista constantemente preocupada com a natureza. Criada em um universo rural, Beth conta que sempre teve um lado muito voltado para a arte popular. “Nasci no Vale do Ribeira e ali convivia com quilombolas e índios guaranis que faziam cerâmica”, conta. Foi naquela época que ela começou a se interessar por artes, fazer brinquedos, roupas, cortar papel e desenhar. “Era uma coisa muito natural pra mim”.

Com o passar dos anos, Beth se viu cada vez mais distante daquele universo. Em São Paulo, estressada e trabalhando com comunicação corporativa, acabou se tornando diabética. Para romper com a rotina, resolveu fazer um curso de joalheria. Foi lá que desenvolveu, com Ricardo Pompulho, a forja.

A técnica a fascinou e a levou para o ferro, depois para o alumínio, para o latão, para o bronze e para o vidro. “As peças de joalheria são grande parte do meu trabalho. São bem arquitetônicas e pesadas e foram muito importantes para mim.”

Mas foi uma colher que levou Beth a mudar de vida. “Era uma pedra de granada e foi feita em forja. Olhei para aquela colher e vi que era aquilo que eu queria fazer; por ali que eu queria ir”, conta. Antes que adoecesse de novo, resolveu construir um ateliê na Vila Madalena e, de lá pra cá, só aumentou a produção e o respeito entre os artistas do bairro.

Colheres e mulheres são duas constantes na produção de Beth Lima e a origem de tais referências está na infância da artista. “Tenho uma coleção de colheres de pau e isso vem muito das minhas andanças Brasil afora, da minha infância, do fogão à lenha, de ver as mulheres cozinhando”. “Sou de uma geração que lutou muito pela causa feminista e eu fui uma das briguentas. Acho que essa causa não acabou e nem sei se vai acabar. Então as mulheres estão e estarão sempre nas minhas obras”.

ARTE NA VIDA – Não bastasse o trabalho que construiu nesses oito anos de ateliê, Beth é uma das idealizadoras do Arte na Vila, ao lado do marido, Valfrido Lima. No evento, que chegou a sua 8ª edição esse ano, artistas abrem seus estúdios e ateliês ao público, na Vila Madalena, Zona Oeste de São Paulo. “A ideia foi baseada no que ocorre no bairro de Montmartre, em Paris, e no Santa Tereza de Portas Abertas, no Rio”, conta. “No começo, eram apenas 20 artistas, hoje são mais de 120 e 60 ateliês que abrem suas portas ao público, uma vez por ano.”

Após essa bem-sucedida experiência, que continua levando a arte a um grande número de pessoas, o casal percorreu todos os estados do País em busca de artesãos cujas obras fossem criativas e de caráter autoral, a fim de desvendar a arte popular brasileira. Com olhar aguçado, produziram o livro Em nome do autor – artistas artesãos do Brasil, no qual expõem e analisam o trabalho de 320 profissionais. Para Beth Lima, “é fundamental para o artista e para a comunidade divulgar esses trabalhos para transformar a realidade em que vivemos”.

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