03/09/2008

Salto na arte do País

Fonte: O Estado de S. Paulo

Projeto Artesanato Brasil com Design emprega 600 artesãos de 50 cidades, e resgata a produção original

SÃO PAULO – Baseado em Bali, na Indonésia, o jovem designer Stanley Ruiz – que reelabora em seus projetos técnicas artesanais apreendidas em andanças pelo sudeste asiático – acaba de cunhar uma expressão bem apropriada para caracterizar os clientes. “Penso neles como varejistas culturais, pessoas que, ao adquirirem meus produtos, sentem que viajaram para um lugar exótico e que trouxeram de lá um verdadeiro tesouro na bagagem”, diz.

De fato, algo mais do que simples nostalgia ou curiosidade parece justificar o interesse internacional por móveis e objetos de matriz artesanal. Além de repletos de significados – algo raro na produção em larga escala -, eles são mais sustentáveis. O que os coloca no topo das prioridades do consumidor consciente, cada vez mais preocupado com a ética produtiva e com a qualidade global dos objetos (tanto a real quanto a apenas percebida).

DivulgaçãoZap o especialista em imóveisPeças de terracota, de Juazeiro

“É um grande desafio para um designer trabalhar com o conhecimento intuitivo do artesão, distante de seu universo de ação. Mas há uma troca real. É possível compartilhar tudo, dos procedimentos aos lucros”, garante o mexicano Lars Diederichsen, do Instituto Meio, que, em conjunto com a também designer Ângela Carvalho, empreendeu um mergulho profundo na cultura artesanal brasileira. Nascido de conversas informais, o projeto Artesanato Brasil com Design teve como ponto de partida a idéia de unir design e artesanato na criação de uma linha de brindes corporativos. “Ângela já tinha desenvolvido trabalhos para a empresa em questão e eu, programas junto a comunidades de artesãos desde 1995”, conta Lars.

Superando as expectativas, em dois anos o projeto visitou 50 cidades em oito estados (com ênfase na região Centro-Norte, dada a multiplicidade de técnicas locais) e empregou a mão-de-obra de 600 artesãos, co-autores de mais de 6 mil objetos. “O designer tem condições de antever o alcance global dos produtos. Algo que falta ao artesão, proprietário das técnicas e do fazer”, diz Ângela.

Visual natural

Preocupação básica da dupla: preservar a integridade do artesanato, muitas vezes descaracterizado pela reprodução excessiva. “Tudo para deixar as peças com um visual mais natural”, sintetiza Lars. Caso, por exemplo, da cerâmica tradicional de Caruaru (PE), onde a intervenção dos designers procurou resgatar os aspectos originais da produção. “A beleza do artesanato está justamente na maneira peculiar como cada um trabalha”, acredita Ângela.

Para ela, a principal contribuição dos designer se deu na estrutura da produção, na organização, na capacidade de cumprir prazos e no cuidado com o acabamento final. Fatores indissociáveis à produção contemporânea, que ela fez questão de enfatizar. “Além disso, do ponto de vista conceitual, procuramos mostrar que é sempre possível agregar valor aos produtos, sem descaracterizá-los”, acrescenta Lars, citando, como exemplo, os delicados trabalhos em capim-dourado e fios de ouro, confeccionados no Tocantins. Ou ainda em Santarém, onde a iniciativa foi de “limpar” os desenhos tradicionais, segundo eles bastante carregados, revelando aspectos ocultos dos objetos.

Seguros de que a experiência contribuiu para aumentar a visibilidade dos artesãos (que já podem ser contatados por meio do Instituto Meio) e atestar a viabilidade econômica do artesanato brasileiro, a dupla planeja, para breve, a segunda etapa do projeto, avançando por outras regiões do país. “É preciso evitar a mecanização do artesão, que mina o seu projeto do ponto de vista econômico. Nesse particular, ainda temos muito a colaborar”, diz Ângela.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.