04/05/2007

“São Paulo precisa ter um plano de arborização”

Fonte: O Estado de S. Paulo

“As árvores melhoram a qualidade da temperatura, diminuem a poluição. O plantio não resolve o problema, mas ajuda.”

Alex Silva/AE Zap o especialista em imóveisAbbud – “Hoje,comtanta informação sobre o aquecimento global, parece que as pessoas estão mais atentas às questões ambientais”

Benedito Abbud: Arquiteto paisagista e professor universitário

Duas vezes presidente da Associação Brasileira de Arquitetos Paisagistas (Abap) – nos biênios 1987-1988 e 1999-2000 -, formado em 1974 pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, o arquiteto paisagista e professor Benedito Abbud fundou em 1981 sua própria empresa, hoje com um portfólio de aproximadamente 3.500 projetos paisagísticos desenvolvidos em todo o Brasil e em outros países, como Argentina, Uruguai e Angola. São projetos de condomínios verticais e horizontais, residências, empreendimentos corporativos e comerciais, hotéis e flats (urbanos e resorts), loteamentos (residenciais e industriais), habitações compactas, shoppings centers, parques e áreas especiais. Antes mesmo de se formar, já trabalhava com paisagismo. Soma, portanto, quase quatro décadas de vivência na área, sobre a qual fala com segurança, desenvoltura. Constata diversos problemas ambientais na cidade de São Paulo, mas preocupa-se em propor soluções, como pode ser visto nesta entrevista concedida ao Estado de S. Paulo.

Como abordar o tema da sustentabilidade numa metrópole como São Paulo?

A questão ambiental era vista, até umas décadas atrás, como coisa dos ecochatos. Com o tempo, se viu que era o caso de botar os pingos nos is, cada coisa no seu lugar. Hoje, com toda a questão do aquecimento global, parece que as pessoas estão mais atentas a esse assunto, com o qual a gente já se preocupava há muito tempo.

Esse é o tema prioritário de sua formação profissional?

Trabalho desde 1970 com paisagismo. Não apenas na área de jardins, mas paisagismo urbano de maneira mais abrangente, paisagismo regional. Dei aula na USP e uma das disciplinas tinha a ver com o entendimento da paisagem regional em termos de clima, de costumes, de visual. Não me limitava ao jardim. Naquela época, a jardinagem cuidava do jardim, e o paisagismo cuidava das questões mais macro. Aí os jardineiros achavam que paisagismo era mais bacana, e todo o mundo começou a usar esse termo. Em conseqüência, a palavra paisagismo passou a abarracar uma grande quantidade de perfis.

São quase 40 anos, portanto, lidando com paisagismo e qualidade ambiental?

Sim, desde quando se falava em industrialização a qualquer custo. O que se dizia era mais ou menos assim: queremos que venham mais indústrias pra o Brasil, precisamos de emprego para o nosso pessoal, mesmo que seja com poluição. Desde aquela época a gente já insistia em afirmar que é importante desenvolver sem depredar. Trata-se de uma questão de postura, de planejamento, de desenvolver alguma tecnologia para atingir essa harmonia entre crescimento e qualidade ambiental.

Esse foi um tempo em que despontaram como símbolos brasileiros da ecologia nomes como José Lutzembnerger, Burle Marx, Franz Krajberg…

Em 1977 fiz uma expedição com o Burle Marx ao Pantanal, com o viés do reconhecimento da vegetação. Lembro que nessa época ele dava muita entrevista com foco no desmatamento. Ele e o Lutzemberger tinham a preocupação de informar sobre a questão ecológica. Já o Krajberg, como é mais artista, usava a matéria-prima da queimada como uma bandeira, como referência de um discurso preservacionista.

Passados trinta anos, o que se pode dizer a esse respeito na cidade de São Paulo?

Recentemente, fui convidado para trabalhar na Casa Cor. Foi interessante porque a gente fez uma reflexão sobre como as calçadas poderiam ajudar na cidade de São Paulo. Normalmente , quando se pensa em calçada, vem a idéia de dois metros de largura por dez de comprimento, em frente da casa de cada um. Só que tivemos a preocupação de somar tudo isso e chegamos a 60 mil quilômetros. Temos na cidade 60 mil quilômetros de calçada, o que significa uma vez e meia a volta da Terra. É enorme, em termos de área.

Com reflexos ambientais na cidade?

Sim, sem dúvida. Qual é um dos problemas ambientais mais sérios da cidade? São as enchentes, que acontecem todo ano. No passado, vários parques foram criados, na cidade, como áreas de alagamento. O Parque Dom Pedro foi um deles, porque as enchentes do Tietê eram um acontecimento natural. A calha do Tietê tem pouco declive. Em sua origem, o Tietê é um rio de meandros, como acontece com os rios de planície. Depois, houve intervenções nos rios de São Paulo. Uma das mais notáveis se deu na época da construção da represa Billings, que puxa a água do Pinheiros para jogar serra abaixo. É por isso que o Pinheiros ora corre numa direção, ora corre na direção oposta. São bombas que puxam a água do rio, invertendo o seu curso conforme a conveniência. É uma tecnologia maravilhosa, tanto na época como atualmente, que só é possível por se tratar de rio de planície.

Os dois rios principais de São Paulo, Tietê e Pinheiros, têm essa característica?

Sim, ambos são meândricos. Depois, com a urbanização, com a retificação, a várzea desses rios foi sendo tomada. Como a cidade invadiu essas áreas, todo ano acontece a tragédia anunciada das enchentes, em janeiro, fevereiro e março, com tanta gente perdendo tudo o que tem. Hoje há algumas medidas preventivas, como a obrigação de se deixar 15% de área permeável no terreno. Em alguns casos, dependendo da natureza da construção, a área permeável tem que chegar a 30%. Mesmo assim, o índice de impermeabilização continua alto e cada vez mais a água das chuvas chega aos mesmos pontos, que são as áreas mais baixas da cidade.

O que pode ser feito para diminuir esse problema?

Os pisos drenantes podem ajudar. O que são esses pisos drenantes? São pisos duros, de concreto, mas que parecem uma peneira: a água cai em cima e sai embaixo. Desenvolvemos esse piso em conjunto com a Associação Brasileira de Cimento Portland (ABCP).

Para ser usado nas calçadas?

Sim. Se cobrirmos todas as calçadas da cidade com esse piso, teremos um efeito semelhante ao da construção de 120 piscinões. Não digo que isso resolvesse o problema das enchentes, mas seria um primeiro passo de grande importância. Para assentar esse piso, começa-se por colocar uma camada de brita grossa, depois brita fina, areia e, por cima, o piso drenante. Com isso, a água que cai é drenada, em vez de correr para as partes mais baixas. A água é drenada exatamente onde deve ser drenada, indo direto para o chão e alimentando o lençol freático, hidratando as árvores das ruas.

O piso drenante é muito mais caro que o piso normal?

Não é muito mais caro, mas a relação custo benefício é bem mais interessante. Poderia até evitar a solução dos piscinões, que tem seus inconvenientes. São grandes reservatórios temporários, feitos para a água da chuva não chegar aos rios. Depois das chuvas, é preciso bombear a água dos piscinões, o que inicialmente traz o problema do gasto de energia. Ao se esvaziar o piscinão, sai junto todo o lixo que ali é acumulado, todo o material orgânico. Depois de esvaziado, fica no fundo uma lama que muitas vezes apodrece, cheira mal, junta baratas, ratos, pernilongos.

Sendo poroso, o piso drenante não dificulta a caminhada?

Não dificulta. Esse que desenvolvemos com a ABCP não dificulta. É um produto já disponível no mercado, pelo menos duas empresas estão fabricando, e eu não tenho nenhum roialty sobre isso. Ajudei a desenvolver pensando na cidade, no problema da água na cidade. Pelo que se sabe, o Brasil tem 13,5% da água existente no mundo. Só que, dentro do Brasil, essa água tem uma distribuição desequilibrada. A região norte, tão pouco habitada, fica com cerca de 12%, enquanto o sul e o sudeste, densamente habitados, ficam com 1,5%. Isso significa que, apesar de o Brasil realmente ter muita água, devemos tratá-la como um recurso escasso.

A cidade de São Paulo busca água cada vez mais longe.

Sim, cada vez é preciso ir mais longe, e quando se fala em sustentabilidade, temos que levar em conta a necessidade de minimizar o uso de energia. O ideal seria tornar as regiões auto-sustentáveis, sem importar tanto, nem de tão distante, para sobreviver. É normal que os grandes centros não gerem toda a sua energia, mas quanto menos importarem, melhor.

Nesse sentido, economizar água com o piso drenante seria um recurso. Há outros?

Desenvolvemos também o que chamamos de tec garden. São placas de plástico reciclado para serem colocadas sobre laje. Hoje em dia, na cidade de São Paulo, as lajes são enormes. Nas estações de metrô, nos prédios com suas garagens, a quantidade de lajes é muito grande, o que significa também a oportunidade de ter jardins sobre elas. Esse elemento, que é simplesmente uma plaquinha que projete a laje dos golpes comuns do manejo de jardins, funciona como se fosse uma base de copinhos, como estes aqui na mesa. Essa base é furada em baixo e recobre a laje. O ralo fica um pouco mais alto, funciona num primeiro momento como um grande retentor de água. Dentro da placa coloca-se fibra de coco, altamente hidrófila. Em seguida coloca-se um elemento semelhante ao perfex que se usa na cozinha, para fazer um filtro. Por cima vem a terra. Quando chove, a água passa pela terra, continua descendo e, ao chegar à laje, sobe até o ponto em que escoa pelo ralo. Parou de chover, vem o sol, aí começa a secar, as plantas absorvem a água. Por capilaridade, a água retorna ao jardim.

Essas idéias já chegam aos governos, à população?

Dependemos dos meios de comunicação. A gente comenta, mas para um grupo pequeno. Com a participação dos meios de comunicação, a idéia chega a um número bem maior de pessoas.

Mais gente, então, poderia aderir?

Fizemos isso pensando numa solução que pode vir a ser o futuro. No Japão, hoje em dia, a pessoa não pode jogar o esgoto de sua casa diretamente na rede, no mar, no rio. Existe lá o que eles chama de micro-estações de tratamento de esgoto. É uma solução muito mais inteligente que as conhecidas até aqui. Em vez de transportar esgoto por vários quilômetros de tubos, até uma macroestação de tratamento, mais simples, barato e eficaz é cada um tratar o seu esgoto. Hoje existe tecnologia para isso. O equipamento é praticamente um tambor de cerca de 200 litros, que pode fazer o tratamento do esgoto da casa toda, do prédio inteiro. Hoje, o problema é que o esgoto sai bruto das casas, dos prédios, dos condomínios, e assim não pode ir para o rio.

Essa solução já começou a ser aplicada?

Sim. No Arquitetura de Morar, um bairro que a Camargo Correa fez no Morumbi, a gente desenvolveu esse conceito, foi até publicado pelo Estado. São pequenas ações que a gente está desenvolvendo, mas o potencial é enorme. Hoje em dia a questão ambiental não passa apenas por um elemento. Tem que ser vista como um sistema. Além da água, é preciso ver também a vegetação. No Estado de hoje (ontem), no caderno Metrópole, vem a notícia de que a cidade de São Paulo vai pagar uma taxa para quem plantar árvores na periferia. São R$ 25,80 por árvore plantada. Na própria reportagem, é citado um técnico da prefeitura, o Paulo del Pichia, que conheço bem. Concordo com o que ele diz: não adianta plantar qualquer árvore, em qualquer lugar. Por que em vez de solução, pode-se criar um problema. Ao plantar, todas as árvores são pequenas, são mudas. Mas é preciso ter conhecimento para ter uma idéia do que aquela muda vai ser, quando crescer.

É preciso ter critério, para tocar adiante um plano assim?

É fundamental que a prefeitura tenha um plano de arborização. Na década de 1980, participei de um trabalho pioneiro no mundo, poucas cidades fizeram isso: um mapeamento da vegetação importante que existe na cidade de são Paulo. Fomos três escritórios, contratados pela prefeitura, e estudamos 3.500 situações de árvores isoladas ou de árvores em conjunto. No livro, por uma questão de espaço, colocamos cerca de 500 situações. A idéia era premiar, em vez de punir, quem tivesse árvore importante em seu terreno. Em casos assim, o terreno perde valor, porque a existência da árvore impede o seu aproveitamento total para construção. Com isso, o proprietário é punido. Pensávamos em compensar o proprietário, dando a ele o direito de tantos metros quadrados, o equivalente ao que ele perdesse por preservar as árvores.

Que destino teve o trabalho?

Infelizmente, não deu no que a gente queria. As árvores importantes do nosso levantamento foram tombadas, e não era isso o que a gente queria. Várias daquelas casas fantásticas da avenida Paulista, por exemplo, foram tombadas, com suas árvores, e acabaram literalmente destruídas, porque ninguém queria ter uma casa tombada que ficava sem valor.

É preciso haver um critério, junto com a idéia de premiar?

O problema é o critério. Ou a falta de critério. Como eu já disse, a árvore pode ser uma solução, mas pode ser um problema, também. Uma vez um trabalho, em Uberlândia, onde nas laterais de uma praça foram plantas figueiras, que são árvores de grande porte. A população adorava, mas os vizinhos da praça e das figueiras detestavam. As raízes das figueiras àquela altura haviam atravessado a rua, estavam levantando as calçadas, trincando as paredes das casas. Os vizinhos queriam arrancar as figueiras. O resto da cidade queria preservá-las. Propusemos então que se fizessem trincheiras, junto às calçadas, e se construíssem muros subterrâneos, de concreto, para a raiz da árvore bater no muro e se desviar para baixo, em vez de avançar em direção às casas.

Fala-se muito em neutralização, para que cada um plante árvores para compensar a poluição que produza. Pode funcionar?

Pode funcionar, mas o ideal é que a neutralização seja feita na própria cidade. Em vez de plantar na serra não sei onde, ou fazer como nos Estados Unidos, onde as pessoas vão plantar na África, na Ásia, o melhor é plantar no próprio tecido urbano em que a pessoa vive. Se causo problemas ambientais em São Paulo, devo plantar árvores em São Paulo mesmo. A arborização é fundamental, numa cidade. Melhora a qualidade da temperatura, por exemplo. O sol bate nos prédio, no asfalto, aquece rapidamente e, à noite, esfria rapidamente. A vegetação, como usa o o sol para a fotossíntese, ameniza o calor. Como a vegetação transpira, melhora a umidade relativa do ar, o que contribui para diminuir a poluição, pois a poeira tende a ficar nas folhas umedecidas das árvores. Não é que o plantio de árvore vá resolver o problema da poluição. Esse é um problema a ser resolvido na fonte, que são sobretudo os carros, mas as árvores ajudam.

Frases

“Em 1977 fiz uma expedição com o Burle Marx ao Pantanal. Ele e o Lutzemberger se preocupavam em informar sobre ecologia. Já o Krajberg, como é artista, usava a matéria-prima da queimada
como bandeira, como referência de um discurso ambientalista.”

“São 60 mil quilômetros de calçadas, em São Paulo, uma vez e meia a volta da Terra. Calçada com piso drenante pode ajudar a diminuir as enchentes. São pisos de concreto, mas que parecem uma peneira: a água cai em cima e sai embaixo.”

“O ideal é que a neutralização seja feita na própria cidade onde a pessoa vive. Se crio problemas ambientais na cidade de São Paulo, devo plantar árvores em São Paulo mesmo.”

 

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