30/10/2006

Sem descanso para a vigilância

Fonte: O Estado de S. Paulo

Síndica de prédio no Morumbi adota normas rígidas e pega no pé tanto dos funcionários como dos moradores

Câmeras, portaria blindada, serviço de vigilância 24 horas na rua de nada valeriam para reforçar a proteção do condomínio administrado pela síndica E. L., no Morumbi, não fosse a rigidez com que ela, funcionários e moradores tratam o assunto. “Somos muito chatos em termos de segurança. Eu sou neurótica”, afirma. Essa “fama”, segundo E.L., só conta a seu favor. “Quem entra aqui para visitar ou trabalhar percebe que o prédio é chato e antipático. Isso cria uma boataria que afasta os ladrões, porque eles procuram facilidades”, defende a síndica.

E o perigo de fato está próximo. Há cerca de três semanas, bandidos fizeram um arrastão em um prédio a poucos quarteirões dali. Para proteger o condomínio, a síndica desde que assumiu o cargo procurou se antecipar aos acontecimentos. Adotou normas simples, ma duras. A primeira foi instalar eclusas para a passagem de todos os pedestres e proibir os moradores de saírem a pé pelo portão da garagem. “Houve uma imensa resistência no começo.

Porque eles não tinham paciência de esperar dentro da gaiola.”
A segunda medida “impopular” foi exigir que a entrada de todos os visitantes fosse anunciada. “Alguns moradores reclamaram de ser desconfortável, que causava constrangimento. Mas aquele que mais se incomodou hoje faz questão.” Essa foi uma briga que a síndica foi vencendo aos poucos. “Nós não recuamos.” Percebeu que para fazer o sistema funcionar tinha de realizar um trabalho de conscientização dos moradores. Distribuiu manuais de segurança em todos os apartamentos. “Porque se o morador não respeita, o funcionário vai ser negligente.”

Além disso, o condomínio faz parte de um bolsão de segurança que inclui mais cinco prédios. Todas as portarias estão em comunicação via rádio. Caso alguma situação de emergência ocorra em qualquer uma delas, as demais estão avisadas. Um carro ainda dá cobertura ao movimento da rua 24 horas. “Se eu vou passear com o meu cachorro, eles estão vigiando.” Segundo a síndica, o aparato encarece a taxa de condomínio em cerca de R$ 150.

Treinamento 

Para que nada fugisse das regras, os funcionários tiveram de ser treinados – trabalho que E. L. considerou um dos mais difíceis. “Eram todos de baixíssima escolaridade. Treinar uma pessoa semi-analfabeta com cursos é possível. Mas se eles não têm o mínimo de compreensão, acham que é tudo besteira. Tem de haver muita cobrança”, desabafa.

Mas para a surpresa e orgulho de E. L., eles levaram tão a sério que começaram a apontar falhas de segurança no condomínio que ela mesma ainda não tinha visto. “A guarita é inteirinha blindada porque eles reivindicaram. Se queremos segurança, temos de dar primeiro condições a eles.”

Até o comportamento de alguns mudou. “Temos um porteiro que virou um pit bull. Ele ficou bárbaro. Não se submete a capricho de ninguém”, comenta. Outra revelação foi o faxineiro G. L. que se aplicou tanto que foi promovido a zelador.

O segredo é não vacilar nem nos mínimos procedimentos de rotina. Ele lembra quando um morador chegou de carro com um estranho ao lado. “Eu disse que o portão estava quebrado e pedi para passarem a pé pela eclusa.” Um blefe para checar se o condômino estava em segurança. E estava. “O morador estranhou, mas me entendeu. Me orgulho de cumprir à risca. Além de proteger o patrimônio, eu me protejo também.” 

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