18/11/2006

Sinônimo de lojas populares, Brás agora investe para se modernizar

Fonte: O Estado de S. Paulo

Varejo na região inicia um lento processo de sofisticação, com uma aposta maior na qualidade e no bom atendimento

Os camelôs ainda tomam conta das ruas, dificultam a passagem de quem anda pelas calçadas e disputam o consumidor das lojas populares que dominam o cenário do bairro do Brás, em São Paulo. Mas, aos poucos, o comércio da região começa a passar por transformações. Lojistas, que anos a fio tocavam seu negócio sem pensar sequer em pintar uma parede, investem na reforma de pontos-de-venda, na contratação de estilistas, de equipes de supervisão e em treinamento. A preocupação é aumentar a competitividade e conquistar o cliente num quadro de concorrência crescente das lojas do Bom Retiro e dos shoppings da região.

Com 55 ruas, 6 mil lojas, sendo 4 mil fabricantes, e um faturamento em torno de R$ 35 bilhões por ano, o Brás quer se modernizar. As mudanças ainda são pequenas, mas em algumas ruas já são perceptíveis. Há 12 anos no mercado de moda jovem masculina e feminina, a Biotipo reinaugurou sua loja há cinco meses. “Além do projeto arquitetônico moderno, investimos num novo conceito de atendimento”, diz o diretor-comercial da loja, Ely Akkari.

A mudança, diz, deu ao cliente atacadista acesso a um showroom onde está a produção de toda a coleção, a modelos que desfilam as peças e a um espaço com jardim, restaurante e café. “Antes da reforma atendíamos no balcão, como quase todos os concorrentes. Agora, parecemos a Daslu do Brás”, brinca. Todos os funcionários passaram por cursos de vendas e treinamento com psicólogos.

“Hoje, quem prega botão numa calça não é mais um simples botoneiro. Ele diz que produz calças. É uma mudança de concepção que valoriza o trabalho e compromete o funcionário com a empresa.” O investimento trouxe um aumento de 15% nas vendas em relação ao mesmo período do ano passado. Mais do que novos clientes, a empresa quer torná-los fiéis.

A mesma estratégia vem sendo seguida pela Woodlouse, especializada em moda masculina, que chama a atenção no meio do comércio de ambulantes da rua Oriente. Nas suas vitrines se destacam grifes como Lacoste, Dudalina, Colella, Nike e Aramis.

Com 6 mil clientes cadastrados, uma boa parte formada por executivos, o diretor da empresa, Carlos Aziz, decidiu investir na modernização e atendimento da loja há dois anos. “Vendo hoje o que se oferece num shopping, mas com custos bem menores”, diz.

A mudança vai da inauguração de provadores grandes e com ar-condicionado a serviço de entrega a domicílio para clientes cadastrados. É com o atendimento a domicílio que Aziz consegue as vendas de maior valor. “Envio para a casa do cliente uma mini-loja com camisas, gravatas, tênis, bonés, perfumes, sapatos.” Da sua receita, 30% vêm desse serviço.

“O processo de mudança e modernização do Brás é ainda lento, mas vem sendo puxado pelo próprio consumidor, que está cada vez mais informado e exigente”, diz. Para atender a este novo perfil, Aziz também tem enviado consultores ao exterior para observar tendências de moda, e investe mensalmente em cursos variados para vendedores. Os funcionários, quando falam ao telefone com um cliente, olham na tela do computador a foto e a ficha de hábitos de compra na loja daquele consumidor.

A Donna Moça desembarcou no Brás, na rua Xavantes, há sete meses, para vender no atacado e varejo. O diretor da empresa, Mauricio Berkowitz, com uma fábrica de jeans no Paraná, teve loja no Bom Retiro por quatro anos. Mas foi no Brás que se instalou de vez. Trouxe a fábrica para São Paulo e inaugurou uma loja no bairro com “cara de shopping”, como define.

“Viemos para fazer um produto de alta qualidade, e não para vender preço”, diz, na contramão do pensamento que dominava na região. Seus seis vendedores passaram por cursos de abordagem de consumidores e registram nos computadores até comentários dos clientes sobre o estado de saúde de familiares, que podem ajudar numa próxima visita do cliente.

A Equus, cujo carro-chefe também é o jeans, além do Brás, tem outros 34 pontos-de-venda, incluindo lojas de shopping. “Todo o treinamento de pessoal e decoração de vitrines obedece a uma mesma orientação, tanto para as lojas de shopping como as duas aqui no Brás”, diz a coordenadora de marketing da marca, Priscila Tesses. A empresa nasceu no bairro em 1976 como uma loja multimarca, fechou as portas, reabriu em 1999 no Bom Retiro e dois anos depois estava de novo no Brás.

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