05/11/2012

Sistemas urbanos policêntricos podem facilitar a sustentabilidade no Brasil

Segundo o presidente da Fundácion Metrópoli, o maior desafio para a sustentabilidade no Brasil está associado ao desenvolvimento coerente das grandes cidades

Fonte: ZAP Imóveis

Para Alfonso Vegara, presidente da Fundácion Metrópoli, entidade espanhola que atua em projetos sustentáveis em cidades do mundo inteiro, o maior desafio para a sustentabilidade no Brasil está associado ao desenvolvimento coerente das grandes cidades. Confira a entrevista exclusiva que o arquiteto, economista e sociólogo concedeu ao ZAP Imóveis diretamente de Madrid.

Alfonso Vegara, presidente da Fundácion Metrópoli (Crédito: Divulgação)

INFOZAP – Como o senhor vê a questão da sustentabilidade nas cidades brasileiras? Este tema está muito atrasado em relação à Europa?

ALFONSO VEGARAA Europa é sem dúvida a região do mundo que mais atenção tem dado a este assunto. A grande aposta tem sido na policentralidade, ou seja, em sistemas de cidades de tamanhos diferentes, bem conectadas e com perfis urbanos complementares. Os governos têm tornado os espaços públicos em ambientes de interação social, desenvolvimento de habitação social, com programas de recuperação de centros históricos e espaços industriais. São modelos de cidades compactas em que predominam os sistemas de transporte coletivo para toda a população, além de oferta de emprego, moradia, infraestrutura, etc. Já o maior desafio para a sustentabilidade no Brasil, no entanto, está associado ao desenvolvimento coerente de mega cidades como São Paulo e Rio de Janeiro. Também é preciso projetar coerentemente o turismo do litoral e buscar novos equilíbrios entre as áreas rurais e urbanas. A potencialidade das cidades médias e a aposta por sistemas urbanos policêntricos pode ser uma estratégia territorial que facilite a sustentabilidade em cada uma das cidades do Brasil.

Que tipo de políticas públicas devem ser realizadas para tornar uma cidade sustentável? Dentro do Brasil há exemplos históricos, como Curitiba, que têm sido referência para o mundo. Há o reconhecimento de políticas concretas feitas lá e que outras cidades poderiam se beneficiar. Sistemas de transporte coletivo integrado com uso do solo, sistemas de parques urbanos, proteção dos ecossistemas ambientais, os corredores (espaços) ecológicos e a potencialização de espaços urbanos tradicionais, programas de integração social, etc. 

É possível tornar uma grande metrópole, como São Paulo ou Rio de Janeiro, em uma cidade sustentável? Mega cidades como São Paulo e Rio de Janeiro são os grandes motores do desenvolvimento econômico do Brasil. Uma das chaves da sustentabilidade é a inovação e a capacidade das cidades de atrair talentos e atividades econômicas avançadas, além da geração de emprego de qualidade. Um dos maiores desafíos de cidades como estas é a fragmentação social e os desequilibrios entre os diferentes estratos da sociedade, que gerou as chamadas favelas. No entanto, um dos grandes fatores inacabados nestas duas capitais é o transporte coletivo, que é esencial para a viabilidade futura destas cidades. Os sistemas logísticos de abastecimento e distribuição são também uma questão essencial neste processo.

Qual a cidade brasileira mais avançada para alcançar um nível sustentável? As cidades médias têm mais facilidade para superar os desafios da sustentabilidade do que as mega cidades. Curitiba foi a grande referência no assunto, embora, hoje em dia a capital paranaense cresceu muito e também enfrenta dificuldades em organizar coerentemente seu território metropolitano. É uma mudança de patamar que muitas cidades no Brasil estão passando, de escala de cidade tradicional a escala metropolitana. E que muitos municípios já estão envolvidos nisso, o que torna mais complexa a questão da governança.

É muito caro desenvolver uma cidade completamente sustentável? Quanto custa um projeto com este perfil para o governo? Encarar os desafios da sustentabilidade não é uma opção hoje em dia, é uma necessidade. O que é realmente caro é pagar o preço de políticas urbanas que não foram sensíveis aos temas de competitividade econômica, integração social e sustentabilidade ambiental e cultural. Na Europa, as cidades com mais intensidade nas suas políticas urbanas são as melhores posicionadas para o desenvolvimento econômico e para a geração de emprego em um grande setor emergente que é o da economia verde. Este setor está associado a energias alternativas, novos sistemas de transporte, arquitetura bioclimática, gestão de resíduos, tecnologias para otimizar o ciclo completo da água e tecnologias digitais para tornar mais eficientes os serviços urbanos.

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