21/11/2008

Tapetes mágicos

Fonte: O Estado de S. Paulo

Inspirado em detalhes do cotidiano, Alfredo de Oliveira mistura formas e cores para deixar sua marca no design têxtil

Ele não é masoquista, mas adora que pisem em sua obras. Literalmente. Alfredo de Oliveira desenha tapetes. Campineiro, de 55 anos, criado em São Paulo, percorreu um longo caminho até se tornar designer têxtil.

Economista, de carreira em comércio internacional, Alfredo abandonou a direção de uma multinacional para investir no projeto “ser feliz”. “As artes plásticas, um hobby, me encantavam a cada dia mais que o mundo das finanças”, diz. A gota d””água? “Quiseram me transferir de departamento. Então, disse que iria para bem longe deles”, recorda-se. Era dezembro de 1986 quando decidiu passar uma temporada nos Estados Unidos. Então com 35 anos, partiu para Nova York em busca de aprendizado em artes plásticas.

Logo conseguiu emprego. Começou como faxineiro, trabalhando para um grupo de franceses que reformavam apartamentos de alto padrão – após uma semana já pintava paredes. A seguir, tornou-se uma espécie de secretário de luxo. Organizava a vida de mulheres da nata nova-iorquina, arquivando documentos e cuidando de jantares, festas. Sem a preocupação com dinheiro, ele pôde passar horas em museus e galerias, treinando o olhar. “Apenas observava para encontrar meu próprio traço, minha caligrafia”, diz. Em 1996, Alfredo decidiu voltar ao Brasil. Desembarcou com o mesmo par de malas com que tinha partido mais a certeza de que viveria de arte.

Só não foi com pintura, como imaginava. Numa reunião de amigos, conheceu Vivian Pisaneschi, da Montreal Indústria de Tapetes e Carpetes. Ela queria diversificar os negócios da família e Alfredo enviou um desenho que casou com o desejo da empresária. Em 2001, nascia a Punto e Filo e, com ela, o designer têxtil Alfredo de Oliveira.

A linguagem da obra
De um modo particular, ele parte do universo à volta, de detalhes do cotidiano e da natureza para misturar, num mesmo tapete, flores, linhas geométricas e listras. “Gosto de olhar o tapete do alto para ter a visão geral, entender a linguagem da obra”, diz. Bom exemplo está no pátio da loja: a peça com estrela de contorno irregular, além de flores, círculos e retas, está em harmonia com a vegetação e os móveis de madeira (modelo AO286, com preço de R$ 880,52 o m²) daquele espaço.

Grafite, cordel, a escrita árabe e especiarias podem ser, entre inúmeros outros, pontos de partida. “As cores dos mercados me encantam. Não uma específica, mas sim o todo. Banca de feira é uma grande salada antropofágica”, diz Alfredo, que prefere o tom açaí ao marrom, o curry ao amarelo. Como outros artistas, ele cria para si, para se ver livre das imagens que povoam a mente. O trabalho começa no guache ou pincel fino. Alguns desenhos chegam prontos; outros, têm de ser burilados. Primeiro ele se dedica à forma, depois à cor, até alcançar o que imagina ser a perfeição. “A repetição cria ilusão. Tem aquela coisa da criança, de experimentar, colocar roxo, vermelho, amarelo… Enfim, não pode ser racional, tem de deixar fluir.”

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