20/10/2008

Um pedaço do Brasil, na África

Fonte: O Globo

Vilas exibem, na entrada, placas com nomes luso-brasileiros

Pelas ruas de Porto Novo, capital do Benim, no continente africano, as vilas exibem, na entrada, placas com nomes luso-brasileiros, como A. Carlos, Freitas ou Souza. A fachada da Grande Mesquita, principal templo da cidade, é a cópia perfeita de uma igreja barroca baiana. Dentro das casas, o padrão de divisão do espaço doméstico, por funções específicas, é característico da arquitetura brasileira do século XVIII. É que os agudás, ou “brésiliens”, descendentes dos ex-escravos que retornaram à África após a abolição da escravatura no Brasil, construíram um país cheio de referências do período colonial brasileiro, como os sobrados residenciais, ornamentados com pedras de cantaria.

Num país onde parte da população torce para a seleção do Brasil na Copa do Mundo; festeja Nosso Senhor do Bonfim, em janeiro; escuta samba e come feijoada nas reuniões familiares, isso parece natural. É o que conta o fotógrafo, antropólogo e pesquisador associado do Laboratório de História Oral e Imagem (Labhoi) da Universidade Federal Fluminense (UFF) , Milton Guran, que prepara para 2009 uma exposição em São Paulo sobre a arquitetura do Benim.

Em fevereiro do ano que vem, Guran, que é autor do livro “Agudás, os brasileiros do Benim” (Nova Fronteira), segue para a Universidade de Ifé, na Nigéria, onde também fará uma mostra com parte de seu acervo de duas mil fotos sobre os agudás, além de gravações de canções e entrevistas. A mostra terá ainda registros de construções da cidade de Lagos, na Nigéria, onde os descendentes de ex-escravos também deixaram exemplos significativos da arquitetura brasileira.

Guran começou seu trabalho de campo no Benim, em 1994, como parte da pesquisa de sua tese de doutorado em antropologia na Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais, na França. O fotógrafo diz que o que mais o impressiona é a maneira como os antigos escravos construíram uma nova identidade social para se inserirem como cidadãos na mesma sociedade que os havia excluído, por intermédio do tráfico negreiro.

Isso é ainda mais impressionante porque a matéria-prima dessa nova identidade social é justamente a memória do tempo vivido no Brasil, ou seja, a própria escravidão – observa.

Os agudás somam de 250 a 500 mil habitantes, que representam, aproximadamente, 10% da população do país. Eles são responsáveis pelas primeiras construções de alvenaria da região e sua arquitetura – singela quando residencial e rebuscada quando religiosa – é a reprodução exata da realizada na cidade de Salvador.  Ao tentar definir os agudás, o sociólogo Gilberto Freyre afirmou: “acontece que são baianos”. E sua definição pode ser percebida em boa parte da arquitetura do Benim, onde vivem os “brésiliens”, na costa ocidental da África. A Grande Mesquita de Porto Novo é um dos principais exemplos. Concluída em 1930 após disputas entre católicos e muçulmanos, a fachada da construção é uma réplica perfeita de uma igreja barroca baiana  mas acrescida de dois minaretes, que são as torres de uma mesquita.

O barroco foi o estilo que reinou no Brasil no século XVIII, sobretudo na construção de igrejas. E, no Benim, tudo se repete. Os traços exuberantes, como se observa nos detalhes em relevo feitos com talhas de madeira e cobertos por finas camadas de ouro, ou nas janelas, cornijas e portas decoradas com detalhados trabalhos de escultura, são encontrados por lá.

Também é brasileira a primeira igreja da região, próxima à cidade litorânea de Aguê, construída por um ex-escravo retornado  informa o fotógrafo Milton Guran, acrescentando que os agudás são o único exemplo de uma identidade social calcada na cultura brasileira longe das nossas fronteiras.

A arquitetura brasileira se vê nas primeiras construções duráveis do Benim. Entre as de alvenaria, por exemplo, estão os sobrados  uma das novidades introduzidas na região pelos agudás, como se vê na casa de Chachá de Souza, o maior comerciante de escravos brasileiro, que se estabeleceu na cidade de Uidá.

Carpintaria e marcenaria também foram “importados”

As técnicas e materiais de construção, como a fabricação de tijolos e o desenvolvimento de carpintaria e marcenaria, também foram importados do Brasil. O fotógrafo destaca ainda o esmero dos acabamentos, com motivos decorativos.

A arquitetura verde-e-amarela também é responsável pela implantação de um novo modelo de ocupação do espaço doméstico, com a divisão de ambientes por função, importado por esses africanos.

Um padrão novo para a região, mas que acabaria respaldado pela colonização européia  observa Guran.

Mas, acrescenta, ele, é importante considerar que hoje a cultura ocidental tomou conta das grandes cidades, de modo que as “maneiras de branco” dos agudás, que faziam muita diferença no século XIX, hoje são as maneiras de todo mundo.

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