18/11/2008

Utopias para morar

Fonte: O Estado de S. Paulo

Qual o futuro da casa? A Abitare il Tempo, em Verona, traz respostas sem medo de ousar

São Paulo – Na trilha do sucesso alcançado no ano passado, a Abitare il Tempo – a mais eclética das mostras italianas – volta a discutir o futuro do habitat doméstico. Mais especificamente, os comportamentos, padrões de funcionamento e movimentos do gosto relacionados à montagem da casa. Uma receita, à primeira vista, já há muito testada por aqui, mas que, na cidade de Verona, a cada ano assume contornos mais conceituais. E menos decorativos.

DivulgaçãoZap o especialista em imóveisProjeto da The Face House mostra espreguiçadeira Riccione

Mais do que um exercício de estilo, cada casa apresentada traz o testemunho particular dos arquitetos convidados diante de toda a complexidade do morar contemporâneo. São projetos nos quais o profissional assume ares de curador, liberto de qualquer vínculo com as expectativas imediatas do mercado, e nos quais novos equipamentos e numerosos protótipos são apresentados.

Reunindo nomes proeminentes da cena italiana atual, a mostra fornece ainda, por meio da simulação de unidades habitacionais autônomas, importantes indicações sobre temas da atualidade, como a sustentabilidade e a automação doméstica. Com a vantagem de que as ambientações em exibição são reais. Ou seja: incluem produtos que já estão – ou se encontram em vias de entrar – no mercado italiano.

“São casas que até podem parecer utópicas, mas que são compatíveis com um futuro que já está aí, batendo à nossa porta”, argumenta o arquiteto Roberto Semprini, autor do projeto The Face House, um dos sucessos da mostra deste ano, realizada em setembro. “A casa contemporânea exige uma planta fluida, livre de paredes e limitações. Capaz de fazer circular as novas idéias”, defende Semprini.

Para ele, essa casa é entendida como um espaço sintético, com atividades concentradas em pontos específicos, mas nunca desconectados. A única parede existente em seu projeto, por exemplo, foi equipada com porta pivotante – sem batentes ou ferragens, franqueando o acesso ao ambiente anexo, mas ao mesmo tempo se diluindo no desenho da divisória. Mais afeito aos aspectos simbólicos do habitar, Simone Micheli prefere rediscutir a questão do luxo aplicado à vida doméstica. Apresentada em fragmentos, por meio de volumes idênticos e essenciais, conectados por um corredor central, seu projeto Domestic Campus representa uma quase antologia dos padrões de funcionamento da casa, dissecados e apresentados por ele em toda a sua especificidade. “O novo luxo na casa está ligado ao desejo de se retomar a intimidade de sensações. É mais o vazio do que a ocupação. Não é presença, mas sim transparência”, pontua o arquiteto, diante do seu orgânico conjunto de contêineres, cada um apresentando um dos “setores” da casa. Locais onde, em sua opinião, o cotidiano pode se manifestar em todo seu potencial – visual, olfativo, auditivo e até mesmo espiritual.

“Neles, o morador pode entrar em contato consigo mesmo”, afirma o arquiteto, que conta com um verdadeiro arsenal de alta tecnologia: no banho, por exemplo, há chuveiro equipado com iluminação cromoterápica e banheira de corian, com linhas orgânicas. Projeto do arquiteto para a Axia Bath Collection, que em tudo remete aos filmes de ficção científica.

No living, sofás e poltronas da linha Quid, também desenhos de Micheli para a Adrenalina, exibem cores ácidas, linhas depuradas e assentos de espuma de poliuretano, que parecem flutuar, graças ao eficiente trabalho luminotécnico realizado pela iGuzzini Iluminazione (com LEDs embutidos na parte inferior dos móveis).

“Um sistema de funcionamento preciso, glamouroso como a moda e instigante como um jogo”, define. Assim é o habitat doméstico ideal na ótica de Maurizio Duranti, autor da Cool House, que exibe em seus ambientes toda a produção recente do arquiteto na área de design. Caso da cama Otello, desenhada para a Alivar, e dos armários Patchwork, que mistura texturas de madeira, da Morelato.

Móveis construídos, segundo o arquiteto, na medida das expectativas do morador contemporâneo. “O objetivo foi satisfazê-lo no dia-a-dia. Nos meus projetos, cada elemento é pensado sem referências ao passado nem exercícios de premonições para o futuro”, afirma Duranti, que pretende induzir os moradores a um viver mais cool.

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