30/10/2006

V. Olímpia: histórias de um charco

Fonte: O Estado de S. Paulo

Nos anos 1920, varjão seguia o Pinheiros e até Santo Amaro só se ia de carro de boi

O aposentado Jaime José Teixeira, de 85 anos, nasceu na Vila Olímpia, na Rua Luiza, onde hoje está parte da Avenida Juscelino Kubitschek, em um tempo em que para baixo da Rua Bandeira Paulista tudo era puro charco. O pai tinha uma cocheira para vacas e soltava os animais em campo aberto todo fim de tarde.

“Naquela época, na década de 20, era um varjão até o Rio Pinheiros. Não tinha luz nem calçamento, só passava carro de boi rumo a Santo Amaro levando lenha e carvão”, diz.

Os leiteiros chegavam de madrugada à região para trazer leite para o centro da cidade. Depois de ajudar o pai, ele e o irmão saíam para caçar passarinhos para os lados da Vila Nova Conceição, em “puro mato”. “Era cheio de passarinho e à noite enchia de vaga-lume. Tinha rio, com fundo de cascalho. Brinquei e bebi muita água ali, que era limpinha.” Para o lado do Itaim Bibi não dava para andar quando chovia.

O pai vendeu os animais no início da década de 30 e abriu um empório na região, próximo da Avenida Santo Amaro. Mudaram também de casa, indo morar na Rua Visconde da Luz, onde ficariam até 1973. “O terreno era grande, de uns 20 metros por 50 metros, tudo na região era chácara”, afirma Teixeira. “Com a morte de papai, comecei a trabalhar no Mappin Store, na Praça do Patriarca, e foi pegando bonde no Jardim Europa que conheci a Hilda.”

O namoro com a jovem, que morava perto da Rua Bandeira Paulista, ficou firme e Teixeira passou a fazer serviços de serralheria, trabalhando inclusive na construção do Jockey Club, em Cidade Jardim, em 1940. Foi quando acabou convocado para o exército e, um ano depois, enviado para o litoral. “A gente fazia a defesa de Santos até São Sebastião”, diz Teixeira. “Eu era do 3º batalhão, estive quase com o pé no navio para ir para a Itália, mas quando ia embarcar veio a ordem para aguardar.”

Teixeira conta que durante todo este tempo, até 1945, sempre que podia vinha para São Paulo para visitar Hilda. “A cada 15 dias, eu dava uma escapada”, conta. Dispensado, casou-se com a moça em 1946. O primeiro filho, teria outro com Hilda, recebeu o nome de Edgar, uma homenagem a um amigo de exército que morreu na Itália. “Nós criamos uma grande amizade, pois ele era designado para fazer os mesmos serviços que eu, ganhava folgas no mesmo tempo e, assim, a gente ficava muito tempo junto.”

Mudança

E foi logo no pós-guerra que a Vila Olímpia começou a mudar. “Os primeiros prédios começaram a ser construídos, chegou luz, asfaltaram as ruas, o bairro ficou bom, os casais vinham namorar”, afirma Teixeira. Serralheiro, abriu uma oficina em 1952 e começou a ganhar dinheiro. “Chegava pau-de-arara (caminhão) todo dia, trazendo gente para trabalhar na construção.”

Teixeira ficou no bairro até 1973, juntamente com Hilda, em uma casa construída na antiga chácara do pai, onde o irmão também tinha feito uma casa para morar. “Aí, vendi a serralheria e nos mudamos para Santos e lá fiquei por 15 anos”, afirma. A mudança seria profunda, Hilda morreria um ano depois e, em 1976, Teixeira conheceria Jandira, com quem teve mais duas meninas.

Voltou para o bairro em 1988, ficou pouco tempo e foi morar no Jardim Irene, lugar em que está até hoje. “Mas sempre visito a Vila Olímpia, porque parte da família ainda está lá. E até encontro alguns conhecidos”, diz Teixeira. “Quem viu o passado e vê o bairro agora não acredita na transformação.”

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