12/08/2009

Venda de imóveis a pleno vapor

Fonte: O Globo

As variações no valor de venda dos imóveis oscilam entre 30% e 400%

O mercado imobiliário das favelas ocupadas pela polícia já sente os efeitos da valorização. As variações no valor de venda dos imóveis oscilam entre 30% e 400%. No Santa Marta, moradores acham que o céu é o limite.

(Fotos: Divulgação)
Embora a ocupação da polícia seja recente, moradores já falam em valorização de imóveis (Fotos: Divulgação)

Uma casa de alvenaria, que era negociada por até R$ 10 mil no tempo em que muitos deixaram a favela por causa do tráfico, agora é vendida por R$ 50 mil. Um corretor que trabalha nas imediações há pelo menos cinco anos diz que só agora foi, pela primeira vez, à ladeira de acesso ao Santa Marta, para mostrar imóveis.

“Antes, não passava da Praça Corumbá. Da última vez, já estacionei meu carro ao pé da escadaria.”

Embora a ocupação pela polícia seja recente, moradores do Morro da Babilônia, no Leme, também já falam em valorização de imóveis. A família Macedo, que mora numa casa dividida em duas, está melhorando o imóvel e até ampliou – e muito – o muro.

“Quando chegamos aqui (10 de junho), esse muro era pequeno e baixo. Agora, circunda toda a casa e tem mais de dois metros de altura”, observa a tenente Renata de Moraes Mattos, subcomandante da UPP dos morros do Leme.

Richard Macedo, de 27 anos, que vive com os pais e um irmão numa das casas – com três quartos -, diz que seu imóvel, que valia R$ 60 mil, hoje não seria vendido por menos de R$ 90 mil. Já o primo Fábio Macedo, de 21 anos, que mora na outra (com dois quartos embaixo e mais um em cima), diz o que o valor passou de R$ 50 mil para R$ 80 mil.

Com um bar no alto da escadaria do Chapéu Mangueira, onde ficava uma boca de fumo, Odília Isidora Bispo perdeu praticamente toda a freguesia.

Ficou três dias sem vender um cigarro após a ocupação policial. Mas ela não reclama e já pensa em mudar de negócio: construir quartos para alugar.

“Estou deixando o barco correr para ver como vai ficar. Se a polícia ficar, faço os quartos. Não gostava desse pessoal que comprava cerveja no meu bar e ficava fazendo besteira por aqui. Tenho uma neta pequena que mora embaixo da minha casa e ficava vendo o que não devia”, diz Odília, de 80 anos.

ALUGUEIS FICAM MAIS CAROS – Numa pequena corretora que funciona dentro do Jardim Batam, em Realengo, é possível encontrar anúncios de casas para vender e alugar.

“Os preços, segundo os moradores, subiram em média 50%. Geraldo Vicente de Amorin, de 68 anos, que mora há 40 no Batam, tentou vender sua residência de dois andares antes da ocupação policial. O corretor avaliou a casa em pouco mais de R$ 30 mil. Após a inauguração da UPP, Geraldo chamou novamente o corretor. O imóvel foi avaliado em R$ 50 mil, mas Geraldo acha que a valorização é maior: – Hoje, não saio daqui por menos de R$ 60 mil”, afirma.

A valorização dos imóveis, como ocorre nas demais favelas ocupadas, não chegou à Cidade de Deus. Pelo contrário, a cada dia surge uma placa anunciando a venda de uma casa.

Moradora há 30 anos da Cidade de Deus, Z. não quer mais saber de ficar no local, desde que o filho, um deficiente mental, foi assassinado na favela.

Ela pediu R$ 20 mil pela casa duplex, no lugar conhecido como Laminha, onde o esgoto mina do asfalto.

“Mas aceito até menos”, acrescenta a moradora.

No local, ninguém usa serviços de corretagem. Alguns moradores parecem estar sempre dispostos a negociar a casa onde moram. Mesmo os imóveis entregues há menos de um ano pelo governo federal no conjunto Jardim do Amanhã II, no Karatê, àqueles que viviam em barracos de madeira num pântano, já estão sendo vendidos por até R$ 8 mil.

Uma moradora conta, sem se identificar, que algumas pessoas de má-fé vivem se inscrevendo para ganhar casa. Depois que conseguem, acabam vendendo o imóvel de alvenaria e voltam a morar em barracos, para sensibilizar o governo.

Nos aluguéis, os preços também acompanham a tendência de aumento.

Até para resolver o problema de alguns moradores do Santa Marta, o estado tem dificuldades de conseguir barracos que se encaixem no valor máximo do aluguel social pago pelo governo – R$ 250.

Hoje, um quarto e sala pode chegar facilmente a R$ 400.

O impacto da ocupação policial no Santa Marta mexeu no bolso dos moradores.

Robson Augusto Barreto, de 42 anos, na comunidade desde 1979, decidiu agora sair definitivamente do aluguel. Só não contava ter que pagar 100% mais por uma pequena laje onde pretende erguer sua casa.

“Os preços no Santa Marta subiram muito. O aluguel de um quarto e sala passou para R$ 350. Antes, você encontrava por até cem reais.”

“Sem violência, as pessoas estão querendo morar aqui”, conclui.

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