12/07/2011

Verticalização atinge todo o País e 1 em cada 10 brasileiros já mora em prédios

Fonte: O Estado de São Paulo

Quem considera que “boom imobiliário” é uma expressão recorrente apenas nas grandes metrópoles brasileiras nunca esteve em Parauapebas ou em municípios como Ariquemes, em Roraima, ou Marabá, no Pará. Um recorte inédito do Censo Demográfico 2010 feito pelo Estado mostra que a verticalização se espalhou pelo País e cidades pequenas e médias são hoje os principais motores dessa tendência.

(Foto: Divulgação)
Número de apartamentos da Região Norte cresceu em um ritmo 3,5 vezes maior (Foto: Divulgação)

Nos últimos dez anos, o número de apartamentos da Região Norte cresceu em um ritmo 3,5 vezes maior que no restante do Brasil – que tem hoje 6,2 milhões de apartamentos, um número 43,2% maior do que em 2000.

Hoje, 1 em cada 10 brasileiros mora em prédios. A proporção ainda é duas vezes menor no Norte, mas o crescimento em locais como Rondônia, Amapá e Tocantins foi sem precedentes. Nesses Estados, os apartamentos se multiplicaram por sete e cresceram proporcionalmente 15 vezes mais que em São Paulo.

Entre as explicações, estão o aumento da renda, do emprego e do crédito. Morar em prédios também se transformou em status, símbolo de prosperidade. Além disso, a falta de terrenos nas grandes metrópoles levou o mercado imobiliário a novos endereços, seja para construir prédios para famílias de baixa renda ou para erguer torres neoclássicas nos moldes paulistanos.

Infraestrutura –  O problema oculto nesses números dignos de crescimento chinês é que, com todos esses prédios, vieram as pessoas. E, com as pessoas, apareceram o trânsito, os assaltos, a falta de esgoto e muitos outros problemas estruturais, que nessas cidades se mostram ainda mais acentuados por falta de planejamento.

Para se ter ideia, 90% dos governos municipais não têm sequer um arquiteto ou engenheiro. Enquanto o adensamento urbano pode tornar as cidades mais compactas e funcionais, a verticalização sem regras piora consideravelmente a qualidade de vida dos moradores.

A preocupação, segundo especialistas, é que esses municípios estão repetindo os mesmos erros das grandes capitais que se verticalizaram nas décadas anteriores. “Temos legislações tão atrasadas que podem ser comparadas às americanas ou europeias do século 19. Não há discussão urbanística alguma nessas cidades”, diz o urbanista Kazuo Nakano, do Instituto Pólis.

Norte do País vive o “”boom”” da construção vertical – Com o início da construção da hidrelétrica de Santo Antônio, no Rio Madeira (RO), edifícios em série começaram a ser erguidos em Porto Velho, mudando a paisagem da cidade. Na esteira do entusiasmo, o preço dos imóveis e o valor dos aluguéis dispararam.

Porto Velho. Operário em conjunto residencial – “É uma bolha. A cidade não tem condição de absorver todos esses imóveis”, reconhece o presidente do Sindicato da Indústria da Construção Civil (Sinduscon) de Rondônia, Manoel Francisco das Chagas Neto.

Atualmente, cerca de 150 empreendimentos estão em construção ou em fase de lançamento. Segundo Chagas Neto, há algo em torno de 8 mil unidades em oferta numa cidade de 428 mil habitantes, conforme dados do Censo feito pelo IBGE.

A febre da construção de prédios começou em 2007, quando o governo federal sinalizou que a as hidrelétricas de Santo Antônio, praticamente dentro de Porto Velho, e Jirau – a cerca de 100 quilômetros da capital – sairiam do papel. Com a expectativa de um aumento significativo no número de residentes e na circulação de dinheiro no município, as construtoras resolveram investir em edifícios.

“Existe um crescimento exagerado”, afirma Ailton Arthur, proprietário da Social Imóveis, uma das maiores imobiliárias de Porto Velho. Proprietários de casas avaliadas em R$ 150 mil até dois anos atrás estão agora colocando os imóveis à venda por até R$ 250 mil, uma valorização de quase 70%. “Na locação tivemos reajustes de até 100% no valor do aluguel”, afirma o empresário, um capixaba que trabalha no setor imobiliário porto-velhense há quase três décadas.

O problema verificado agora é que grande parte das pessoas que chegaram à cidade por conta das hidrelétricas não tem uma renda suficiente para pagar por imóveis com um custo de até R$ 4.500 por metro quadrado.

Outras cidades em verticalização também estão aprendendo a lidar com novas dificuldades – congestionamentos e insegurança começaram a preocupar localidades que nem sabiam o que era isso. Um exemplo é Nova Serrana, em Minas, que viu seu número de apartamentos aumentar 300% em dez anos. Funcionário da indústria calçadista, Celso Fernandes da Silva, de 33 anos, mudou-se há alguns anos para um apartamento em um prédio todo ocupado por sua família. “Antes, quase todo mundo morava em casa. Agora, o problema da violência cresceu demais. Estão invadindo casa a toda hora.”

Sem transporte. Em Rio Branco, no Acre, chama a atenção o descaso com o transporte público. Seis torres já foram construídas na região do entorno do maior shopping da cidade e pelo menos 15 prédios e outras unidades habitacionais residenciais serão lançadas ali até 2012. Até agora, porém, apenas uma linha de ônibus atende a região.

Mesmo cidades com planejamento rígido como Palmas, no Tocantins, sofrem com a dificuldade de combinar verticalização com investimento em infraestrutura. O Plano Diretor proíbe a concentração de prédios e determina uma densidade máxima de 380 habitantes por hectare. A regra, porém, não foi suficiente para impedir que milhares de consumidores ficassem sem água no ano passado.

Colacoraram Célia Bretas Tahan, Eduardo Kattah, Júlio Castro, Marcelo Portela e Nayanne Santana

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