10/03/2009

Vista sua casa com xadrez

Fonte: O Estado de S. Paulo

Dos celtas a Madonna, o xadrez, que ganhou fama na Escócia, atravessa os séculos para continuar em moda

Sempre encantando, não apenas decoradores, mas também designers de tecido, o xadrez não sai de moda. Sua geometria sedutora tem história bem antiga. Dizem textos de Virgílio que os celtas já gostavam do padrão, como depois os Pics, seus descendentes, no século 17 a.C.. Em seguida vieram os Scotti, com fama de criminosos, bem pretéritos habitantes das altas montanhas, ou highlands escocesas, e que alarmavam os habitantes das terras baixas, ou lowlands. Havia o gosto por cores fortes, o vermelho-vivo, o amarelo, o azul e o verde, numa tecelagem de fios tintos com pigmentos da terra, e cujos variados padrões haveriam de servir para identificar, pelas roupas de batalha, ou warclothes, os diferentes clãs que ali viviam e controlavam essas misteriosas e míticas montanhas.

Agência Estado

Os MacGregors, um dos mais antigos desses clãs, eram conhecidos como foras-da-lei. Houve um decreto que não só autorizava, mas também sugeria que, se avistados, se desse deles cabo. Rob Roy, no Robin Hood de Sir Walter Scott, era um MacGregor. Outro clã sem escrúpulos teria sido o dos Campbells, cujos soldados usavam, nas guerras, o tartan do líder. Assim, o padrão escocês das mais poderosas famílias ia aos poucos se transformando em símbolo de aspirações nacionalistas.

Foi bem mais tarde, durante o reinado da rainha Vitória, na segunda metade do século 19, quando a Escócia – país que ela adorava, terra de John Brown, um highlander, aquele que foi seu protetor e por quem, dizem as más línguas, ela teria se apaixonado depois da morte de seu querido Alberto, em 1861 – virou moda como resort de turismo, é que o padrão escocês entrou para o bem-sucedido mundo do design. Deixava de ser apenas aquele da vestimenta oficial e identificadora do clã, dos xalezinhos nos ombros das mulheres da família, presos por broches ou aos cintos, ou a estampa típica de mantas de lã, forro de chão e paredes nos castelos escoceses, para decorar e se transformar em objeto de desejo, de utilidade inclusive doméstica e lembrança de viagem à Escócia.

Foi na cidade escocesa de Mauchline, no estado de Ayrshire, que os padrões começaram a ser desenvolvidos. Daí muitos se referirem a essas peças de coleção como mauchlineware ou tartanware, que também melhor especificam aqueles com desenho tartan e as diferenciam daquelas apenas envernizadas e deixadas no tom mesmo da madeira, em geral o sycamore, ou plátano, e com desenhos de paisagens ou pessoas, geralmente em preto.

Os primeiros objetos de sucesso foram as então tão populares caixinhas de rapé. No início de um mercado que vingou durante 160 anos, elas eram pintadas à mão e depois laqueadas. As mais antigas tinham dobradiças de madeira, pois o metal não acompanharia a oscilação do plátano, sujeito à umidade ou à secura. Mais tarde, passou-se a usar o decalque ou opapel escocês estampado, antes da laca ou do verniz. Estão entre as peças mais disputadas hoje por colecionadores e connaisseurs. Faziam-se caixas de chá, de fósforos, porta-dedal, porta-guardanapos, estojo de guardar copo, caneta, tesoura, cartões de visita, dados, baralho, alfinetes e carretéis. Ou cigarreiras, porta-retratos, bandejas e mesinhas de costura ou outra utilidade com compartimentos para a mistura de ervas para o chá. Também capas de livros, mata-borrões e porta-plumas ganharam desenho escocês. Impressionante é a diversidade de objetos, muitos deles decorados, ao mesmo tempo, no padrão xadrez ou com pintura preta sobre a madeira clara. Entre os mais importantes fabricantes estão John e James Smith, que chegaram a ter 400 empregados, e publicaram, em 1842, o volume Authenticated Tartans of the Clan Families of Scotland.

ESTAMPA EM LIVROS – Conhecida colecionadora de tartanware, tendo inclusive publicado um livro sobre a própria coleção, iniciada há mais de 30 anos no mercado de Portobello Road, em Londres, é a princesa Ira Furstenberg, tão amiga do Brasil, onde morou quando bem jovem e casada com o paulista Baby Pignatari. Tem peças no padrão Stuart Check vermelho-intenso, que representa a família de mesmo nome. Outras em amarelo e laranja, do clã dos Buchanans, mais conhecidos pelo uísque escocês. E muitas com a estampa vermelho-escura e preto dos McLahan. Apesar de meio italiana, meio austríaca, Ira atribui seu encanto e paixão pelo tartanware aos avós escoceses, o duque e a duquesa de Hamilton.

Um outro livro, Tartan, Romanceando o Padrão, foi recentemente editado pela Rizzoli. Escrito a quatro mãos, por Jeffrey Banks e Doria de La Chapelle, tem prefácio de Rose Marie Bravo, a empresária que revolucionou e modernizou a Burberry?s, conhecida pelo famoso xadrez dos forros das capas de chuva que depois invadiram as passarelas. Mostra como o padrão foi e vem sendo usado por designers de moda como Yves Saint Laurent, Vivienne Westwood, Bill Blass, Jean-Paul Gaultier, Rei Kawakubo e Isaac Mizrahi. Mostra o tartan no contexto da tradição por meio de pinturas e gravuras antigas e históricas. Como não poderia faltar, também nas páginas do livro, imagens da rainha Vitória a caráter, da rainha Elizabeth, criança junto à irmã e depois adulta, em kilts e veraneando em Balmoral. Aparece o príncipe Charles de saias curtas, gravata, colete e paletó. Tem Diana e a atual Camilla, ambas de xadrez, dos pés à cabeça. E Madonna, em turnê de 2004, vestindo o famoso kilt com camiseta branca.

Não faltou no livro a cena de um casamento escocês em Sex and the City, nem as coleções de objetos da rainha Vitória, nem as belas vitrines em xadrez da Tiffany ou de Ralph Lauren. Também os antigos interiores escoceses ali registrados podem ser inspiradores de uma decoração contemporânea, como aqueles da dupla americana Diamond & Baratta, que, com tanta graça, sabem tirar partido desse secular e tão tradicional padrão.

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